Sempre Ministrados

Pesquisar neste blog

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Magnificat" - O Cântico de Maria

"Então disse Maria: Minha alma engrandece ao Senhor..."  -  Lucas 1.46-56 [46] NVI.

INTRODUÇÃO:
Desde os tempos antigos que os israelitas expressavam suas emoções e sentimentos através de seus cânticos, ora sozinhos, ora em grupos.
Moisés cantou alegremente após o triunfo de Jeová ao fazer passar o povo pelo Mar Vermelho (Êxodo 15.1-19).
Miriã liderou um grande louvor a Deus com todas as mulheres israelitas dançando e tocando tamborins (Êxodo 15.20,21).
O povo de Deus também cantou após descobrir água no deserto de uma terra chamada Beer (Números 21.16-18).
A juíza e profetisa Débora juntamente com o líder militar Baraque, nos tempos da vitória sobre Jabim, rei dos cananeus, louvaram a Deus expressando vossa gratidão a Ele pela Sua misericórdia e justiça perante Israel (Juízes 4 e 5).
As vezes, segundo historiadores, os antigos israelitas entoavam cânticos seculares e até mesmo militares, de trabalho ou religiosos ao extremo.
Lembro-me perfeitamente do episódio em que os profetas de Baal e Elias se enfrentaram no monte Carmelo: tais falsos profetas se utilizaram provavelmente também do canto para invocar seu deus falso (I Reis 18.26), além de clamarem desesperadamente e manquejarem, um ritual pagão da época (cf. I Reis 18.28).
As mulheres de todas as cidades de Israel celebraram a vitória de Davi sobre Golias, cantando e dançando com júbilo (I Samuel 18.6,7).
Durante e após os reinados de Davi e Salomão os cânticos passaram a ser parte dos cultos a Deus em Jerusalém (I Crônicas 25; II Crônicas 5.12-14).
O próprio Jesus, nascido sob a lei, isto é, obediente aos costumes judeus (Gálatas 4.4; Lucas 4.16) provavelmente aprendeu de igual modo a cantar nas sinagoas e templos conforme o costume (I Crônicas 16.1-6; Mateus 26.30; Marcos 14.26; cf. Lucas 2.52Efésios 5.19).

O cântico sempre esteve presente na vida dos servos de Deus. Sobre a data que se aproxima, analisaremos nas seguintes linhas um dos mais belos e instrutivos louvor bíblico a respeito do menino que nos foi dado [...] para viver, aprender, ensinar, morrer, ressuscitar, libertar e reinar por nós, trazendo remissão, expiação e vitória para todo sempre: JESUS.


1. O que é um cântico biblicamente correto?
Quando Maria menciona o verbo "engradece" referindo-se ao Senhor, reconhecem a maioria dos teólogos que o título deste cântico pode ser atribuído a "Magnificat" (expressão original latina que significa "magnificar", "exaltar"), que remete ao advento em questão, o nascimento de Jesus Cristo.
O verbo que aparece no cântico de Maria é o mesmo que Lucas empregou em Atos 10.46: "...porque os ouviam falar em línguas, e magnificar a Deus."
A palavra "cântico", em sua origem (gr. "õde" ou "hõdê") sempre é usada tanto no Novo Testamento quando na Septuaginta (LXX - versão grega do AT) referindo-se ao louvor a Deus ou a Jesus. Faz-se necessário comentar que o termo define qualquer tipo de cântico, exceto espiritual (verdadeiramente), por isso o acréscimo do adjetivo "espiritual" pelo apóstolo Paulo em Efésios 5.19 e Colossenses 3.16 para diferenciar o louvor pagão do divino.
Paulo quis comparar a forma de louvar a Deus com os salmos e hinos entoados pelos antigos homens e mulheres das Escrituras, mencionando os termos sinônimos "psalmos" e "kumnos", ambos do original grego e de mesmo significado já mencionado, mas que não necessita do adjetivo "espiritual" para dar ênfase a Deus (gr. "pneumatikos" - que denota cânticos "revelados pelo Espírito de Deus"; expressão que aparece no Novo Testamento somente após a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes - cf. Atos 1.4,5,8; 2.4).

2. Quem foi Maria? Isso mesmo: Quem foi?
O nome próprio "Maria" é a forma grega do nome hebraico "Miriã". Na septuaginta, o nome de Miriã, irmã de Moisés, aparece como "Mariam".
A primeira referência bíblica à mãe do Messias é o que chamamos de "protoevangelho", ou seja, o primeiro texto na Bíblia que se refere ao Evangelho:
"De agora em diante, você e a mulher serão inimigas. O mesmo ocorrerá entre a sua descendência e a descendência dela. O descendente da mulher esmagará a sua cabeça, e você ferirá o calcanhar dele." (Gênesis 3.15 NVI [NBV]).

O texto asserta que o destruidor de Satanás será o descendente de uma mulher, uma clara menção à Jesus e Maria (Isaías 7.14; Mateus 1.22,23).
A mensagem de Isaías é interpretada por Mateus como uma profecia de que o Messias viria de um nascimento virginal, isto é, Jesus nasceria de uma mulher que nunca havia tido relações sexuais com ninguém. Algo extremamente espiritual, fora do entendimento humano (I Coríntios 2.14,15).
A encarnação de Deus (João 1.1,14) foi predita como um ato miraculoso e cumpriu-se na vida de Maria de Nazaré, prometida a casar-se com o carpinteiro José (Mateus 1.18; Lucas 1.27).

Há muitas informações sobre Maria a respeito de sua infância, juventude, início da relação com José, etc. [...] todavia, muitas sem comprovações.
Existe, inclusive, uma afirmativa de que Maria noivou com doze anos e teve Jesus mais ou menos aos treze. Parece algo fora do comum, mas alguns historiadores, católicos romanos principalemnte, afirmam que isso era costume da época. Vamos preferir as informações contidas na Bíblia, pois onde ela silencia nós também devemos silenciar (Deuteronômio 4.2; 12.32; Josué 1.7; Provérbios 30.6). De tudo o que se tem ouvido, devemos temer a Deus e guardar os Seus mandamentos, porque isso é para nós como obrigação (Eclesiastes 12.13).

• Combatendo a Mariolatria:
O significado de "Mariolatria" segundo o dicionário online de português é por si só suficiente: "Culto à Virgem Maria, levado ao exagero."
Se observamos Maria adorando a Deus neste cântico pelo que lhe acontece, por que, então, adorá-la?
Isto pode ser polêmico, quando na verdade não deveria, pois a Bíblia enfatiza muito bem que somente Jesus é digno de toda e qualquer adoração:
"Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos." (Atos 4.12 NVI);
"Ela dará à luz um filho, e você deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados." (Mateus 1.21 NVI);
"Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos.
Esse foi o testemunho dado em seu próprio tempo." (I Timóteo 2.5,6 NVI);
"Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus, a qual ele derramou sobre nós com toda a sabedoria e entendimento. E nos revelou o mistério da sua vontade..." (Efésios 1.7-9 NVI).

Não vejo motivos de depositar alguma adoração ou mesmo a mínima atenção a Maria por, no mínimo, três razões:
(1) Ela nunca foi e nem é a mãe de Deus:
A expressão "mãe de Deus" implica que Deus um dia nasceu, sendo que Ele nunca nasceu (Salmo 90.2), pois existe de eternidade a eternidade.
O que acontece é que o Senhor foi encarnado, fez-se carne, isto é, veio ao mundo como homem, que é totalmente diferente de nascer como se nunca tivesse existido (João 1.1-14; Hebreus 13.8). O próprio Jesus em Caná a advertiu quanto a isso, chamando-a de "mulher" ao invés de "mãe" (João 2.4).
Noutra menção, já no madeiro, Jesus afirmou: "Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe." (João 19.26,27), uma declaração implícita de que Maria não era sua mãe, como mãe de Deus, mas exemplo de fé e obediência para toda a humanidade (Hebreus 6.12; 13.7).
Para mais informações sobre a verdadeira dinvindade veja o tópico 4 do estudo "O nascimento de Jesus".
(2) Ela nunca foi digna de culto:
Como já vimos acima, Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (I Timóteo 2.5), por isso, Maria nunca foi e nem será capaz de receber orações para interceder por nós, porque já morreu (Eclesiastes 3.1,2; 9.5; 12.7; Gênesis 3.19 - Veja o estudo "Para onde vamos quando morremos?").
Jesus, do contrário a natureza humana, um dia morreu e ressuscitou como alguns na história da humanidade. Porém, somente Ele continua vivo até hoje e por isso merece toda a adoração (Apocalipse 1.18; 2.8; 4.9-11).
(3) Ela não é mais virgem:
Depois de dar à luz a Jesus, Maria não se manteve virgem, pois era casada legalmente com José e passou a ter relações sexuais normalmente com seu marido (Marcos 6.3; cf. I Coríntios 7.4). Não haveria sentido, por exemplo, em chamá-la de virgem nos dias posteriores ao nascimento de Jesus.

Outros pontos a serem observados sobre Maria é que esta achou graça diante de Deus (Lucas 1.28,30), não necessariamente que ela tinha graça para dar, mas havia recebido do Pai para ser usada como serva Dele, doando seu ventre para a vinda do Messias, por ser achada pura (note as expressões que a própria utiliza: "Eis aqui a serva do Senhor [...] porque contemplou na humildade da sua serva." - Lucas 1.38,48).
Isto se deve ao fato de que Maria era obediente ao Senhor, visto que nas palavras compostas por ela no cântico vemos muitas frases e conceitos do Antigo Testamento, que para os judeus era as Escrituras Sagradas (João 5.39; Lucas 24.45; Mateus 26.54). Uma grande semelhança na construção das palavras, expressões e do sentido musical, por exemplo, é o cântico de Ana (I Samuel 2.1-10).
Além disso, sua expressão caracterísitca lembra muito os salmos gregos traduzidos na Septuaginta, onde muitos salmistas, em especial Davi, haviam já declarado com cânticos, diversas vezes, que o Senhor é grande:
"Quero cantar ao Senhor pelo bem que me tem feito." (Salmo 13.6 NVI);
"...meu coração exulta de alegria, e com o meu cântico lhe darei graças." (Salmo 28.7 NVI);
"Proclamem a grandeza do Senhor comigo; juntos exaltemos o seu santo nome." (Salmo 34.3 NVI);
"Louvarei o nome de Deus com cânticos e proclamarei sua grandeza com ações de graças." (Salmo 69.30 NVI).

3. Parafraseando sobre o cântico:
No mais, quando Maria vai adiante com o seu louvor a Deus, os paralelos textuais tornam-se ainda mais admiráveis vindos de alguém que não apenas lia, mas estudava, decorava e vivia a Palavra.
Observe algumas das respectivas comparações a seguir pela Nova Bíblia Viva (NBV - link disposto na versão NVI):
(1) Lucas 1.49 e Salmo 71.19 NVI:
• "Pois o Poderoso fez grandes coisas comigo."
• "O Senhor tem feito grandes coisas."
(2) Lucas 1.52 e Salmo 2.6 NVI:
• "Derrubou governantes dos seus tronos..."
• "O Senhor anuncia: Eu mesmo escolhi o meu Rei!"
(3) Lucas 1.53 e Eclesiastes 2.26 NVI:
• "Satisfez os corações famintos e despediu os ricos com as mãos vazias."
• "...mas se um pecador fica rico, Deus tira dele a riqueza e entrega a quem o agrada."

Talvez alguém se pergunte como uma jovem de tão pouca idade poderia compor uma linda canção em pouquíssimo tempo com muita espotaneidade e profundidade bíblica. Compreendemos que no primeiro século os judeus eram tidos como teocráticos, ou seja, acreditavam plenamente que Deus era o governador maior de todas as coias. Era o seu relacionamento com Deus que lhes davam a capacidade de criar muitas coisas dedicadas a Ele, inclusive algumas vezes compor perfeitos poemas (cf. Lucas 1.67-79). Os judeus eram conhecidos como "o povo do livro", porque liam, decoravam, citavam e cantavam todos os sábados nas sinagogas. Com certeza os pais de Jesus tinham o mesmo costume (Mateus 1.19; Lucas 1.28,38).
Isto conclui que provavelmente entre o tempo em que havia falado com o anjo Gabriel e até sua chegada a casa de Isabel (entre os versículos 38 e 39), período que compete cerca de três a quatro dias de viagem a pé, Maria pôde adorar a Deus em particular, refletir profundamente sobre suas experiências com Ele e compor este lindo cântico espiritual (Lucas 1.47).
Uma tremenda lição nós aprendemos aqui: se quisermos ser usados por Deus não precisamos esperar reconhecimento humano, mas enchermos do conhecimento bíblico para produzir alguma coisa boa (Mateus 21.43).

Importante percebermos qua Maria preocupou-se tanto com a maravilhosa obra de Deus em sua vida (Lucas 1.26-38) que nem se lembrava mais da reação duvidosa e normalíssima de José (Mateus 1.19), tampouco e, provavelmente, das conversas maldosas na vizinhança.

• Neste maravilhoso cântico notemos o seguinte (Lucas 1.46-56 ARA):
(1) Adoração íntima a Deus:
"A minha alma engrandece ao Senhor." (v. 46).
(2) Alegria íntima em Deus:
"...e o meu espírito se alegrou em Deus..." (v. 47).
(3) Reconhecimento da necessidade de salvação:
"...Deus, meu salvador." (v. 47).
(4) Auto-declaração de humildade:
"...humildade da tua serva." (v. 48).
(5) Reconhecimento de que o ocorrido ficaria na história:
"Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada." (v. 48).
(6) Reconhecimento do poder de Deus:
"...o Poderoso..." (v. 49).
(7) Para sempre ela seria referência de obediência e não de idolatria:
"Porque o Poderoso me fez grandes coisas." (v. 49).
(8) Santo só o Senhor:
"Santo é o seu nome." (v. 49).
(9) Reconhecimento do amor de Deus:
"A sua misericórdia..." (v. 50).
(10) Misericórdia infinita de Deus:
"...de geração em geração... (v. 50).
(11) A misericórdia recai sobre os que temem a Deus:
"...sobre os que o temem." (v. 50).
(12) Novamente reconhece o poder e a justiça de Deus:
"Agiu com o seu braço valorosamente." (v. 51).
(13) A ira de Deus sobre os soberbos:
"...dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos." (v. 51).
(14) Novamente a justiça de Deus:
"Derribou do seu trono os poderosos..." (v. 52).
(15) A exaltação de Deus para com os humildes:
"...e exaltou os humildes." (v. 52).
(16) A atenção de Deus aos simples:
"Encheu de bens os famintos..." (v. 53).
(17) O desprezo Dele para com os altivos:
"...e despediu vazio os ricos." (v. 53).
(18) A confirmação de Sua vinda para os Seus:
"Amparou a Israel..." (v. 54).
(19) O cuidado divino direcionado aos Seus servos:
"Amparou a Israel, seu servo." (v. 54).
(20) Sua lembrança de misericórdia:
"...a fim de lembrar-se da sua misericórdia..." (v. 54).
(21) Lembrança da antiga promessa:
"...a fim de lembrar-se da sua misericórdia a favor de Abraão... (vv. 54,55).
(22) Cumprimento de promessas:
"...e de sua descendência, para sempre, como prometera aos nossos pais." (v. 55).
(23) Provavelmente houve mais cultos de adoração a Deus durante os três meses de estadia na casa de Isabel:
"Maria permaneceu cerca de três meses com Isabel e voltou para casa." (v. 56).

Nota: É comum encontrar relatos do parentesco de Maria com Isabel na Bíblia e concluir que eram primas. Não é incorreto afirmar isso, mas é de suma importância conhecer os costumes das famílias na época para compreendermos o que difere "ser parente" e "considerar da família". As crianças nos tempos bíblicos, inclusive do Novo Testamento, eram criadas não apenas pelos pais, como também pelos vizinhos e servos, quando haviam. Abraão tinha um modelo de família interessante, onde era constituída de pai, mãe, filhos, tios, tias, primos, primas e servos. José e Maria parecem ter participado, em alguma parte pelo menos, de uma família assim. Quando Jesus tinha doze anos foram para Jerusalém juntamente com "parentes e conhecidos" (Lucas 2.44). Havia um número relativamente grande de membros dessa "família" para não darem falta do menino durante um dia inteiro, além de haver certa confiança por saberem que Jesus estava entre família (Lucas 2.43). Pensando assim é possível que Isabel fosse mesmo prima de Maria ou apenas parte da sua família por consideração. Até porque, a palavra "parente" usada no Novo Testamento, em sua origem (gr. "sungenes") significa "família" ou "consaguíneo a", mas também forma o termo "relação familiar", denotando que alguém foi criado junto sem necessariamente ser consagúineo. O que podemos afirmar com certeza é que Maria e Isabel eram parentes, se legítimas ou por consideração, deixemos com a Bíblia.

CONCLUINDO:
Maria foi agraciada por Deus por ter sido o invólucro de Jesus para que viesse como um homem normal habitar neste mundo. Percebemos isso ao observarmos a genealogia de seu pai terreno José.
De Abraão a Jacó, não o patriarca, e sim seu avô, o evangelista Mateus usa o verbo "gerar". A partir de José e Maria ele usa o verbo "nascer". Isto não foi relatado usualmente, mas para entendermos que Jesus não foi gerado, mas encarnado (Mateus 1.1-16; João 1.14).
Todos nós um dia nascemos porque fomos gerados, mas Cristo nasceu sem ter sido gerado, pois Ele não poderia ter sido gerado sendo que tudo foi feito por ele (Colossenses 1.15-17).
Antes da chegada de Jesus, Maria compôs esta linda canção profetizando sobre o que aconteceria após a Sua chegada (Lucas 1.51-53; cf. Tiago 5.1-8). Assim como Maria, antes do suposto Natal, celebremos e profetizemos sobre o reino de Deus que é próximo. Feliz Natal a todos!


0 comentários: