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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Algumas hipérboles de Jesus

"E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus. [...] Guias cegos, que coais os mosquito e engolis o camelo." - Mateus 19.24; 23.24.

INTRODUÇÃO:
Expressões quase que incompreensíveis são facilmente encontradas na Bíblia. Jesus é um dos personagens bíblicos que mais utiliza esse tipo de linguagem, o que torna ainda mais difícil sua interpretação.
Referências tão enigmáticas tornam o texto tanto cansativo como atraente para o estudante incansável, chegando até ao ponto de estranheza, uma hipérbole, por exemplo.
Hipérbole, na língua portuguesa, é uma figura de linguagem que engrandece ou diminui em demasia proposital e expressa em forma dramática aquilo que se quer mencionar, ou seja, exagera a autenticidade de algo.
Exemplos de hipérboles: Morrer de rir, esperar loucamente, repetir um milhão de vezes, chover dinheiro, etc. Nenhuma dessas frases são literalmente verdadeiras, mas querem dizer algo com o intuito de chocar o interlocutor.
Da mesma forma, muitas expressões bíblicas se enquadram na definição de hipérbole e, por isso, não podem ser interpretadas sem prévio estudo.
Assim, passaremos a responder uma questão intrigante: o que significam as expressões de Jesus mencionadas no texto áureo deste comentário?
Na verdade, eu estava guardando esta ministração para mais adiante em uma nova série do blog, mas este assunto vem me incomodando nos últimos dias e resolvi adiantá-los de forma avulsa.
A partir deste ponto estaremos tratando das duas expressões exageradas de Jesus e, por consequência disso, nos deteremos especificamente nelas.
Boa parte do contexto será analisada para a compreensão das hipérboles, mas não nos alongaremos no entrecho, exceto nas necessidades.

1. Um camelo no fundo de uma agulha (Mateus 19.24; Marcos 10.25; Lucas 18.25):
Os três evangelhos sinóticos mencionam este asserto.
Embora muitos interpretem a afirmação de Jesus apoiados por estudiosos bíblicos em bom número, sabe-se que as informações dos mesmos não tem base bíblica nem histórica, isto é, não passam de suposições.

A primeira afirmativa da maioria dos eruditos, baseada em suposições, é que Jesus estava se referindo a um pequeno portão que ficava logo após outro maior e principal de Jerusalém (ou nos muros ao lado da cidade). Este se fechava a noite e aquele se tornava a única forma de ter acesso à cidade.
Como Jerusalém é tratada na Bíblia como a cidade santa (Mateus 5.35; Isaías 48.2), a pequena parábola de Jesus refere-se à possibilidade ou não de entrar no reino de Deus.
Todavia, o texto não fala de quem, exatamente, mas com o que se pode entrar. Se um rico não entraria no reino de Deus tão facilmente como um camelo na suposta portinha da cidade, é porque, para o camelo passar (um animal relativamente grande) teria que se agachar e deixar todas as bagagens que trazia. Semelhantemente, o homem teria que deixar todos os objetos, inclusive os de valor (as riquezas).
Essa explicação, por si só, já nos faz compreender a mensagem, mas de forma minimizada, incompleta, pois as palavras de Jesus não se resumiram apenas a "quaquer um entra, desde que abandonem todos os pertences." Textos isolados não podem explicar a completude da mensagem de Deus.
Outros textos mencionam que nem todos entrarão no reino de Deus (II Pedro 3.9; Mateus 25.41; 7.21). Portanto, esta afirmativa é inaceitável.

A segunda afirmativa é baseada em relatos antigos e distantes a ponto de não haver uma confirmação exata.
Diz-se de antigas estalagens tendo pequenos portões preparados para inibir salteadores ou alguns metros de caminhos entre as montanhas tão estreitos que para passar por eles era necessário descer dos camelos, provavelmente retirar também todas as cargas do animal e seguir o caminho adiante totalmente desprotegido por estar com as mãos ocupadas. Esta afirmativa também é suposição.
Muitos estudiosos se utilizam de informações sem base suficiente para minimizar a palavra paradoxal de Cristo com relação a entrar no céu.
Há, por exemplo, referências de pesquisadores que afirmam da possibilidade de a palavra "camelo" aqui ter sido grafada incorretamente no grego, quando deveria ser "corda" (a construção grega para "corda" ou "cabo" ["kámilos"] e "camelo" ["kámelos"] são parecidas).
Como essas teorias surgiram após os tempos do Novo Testamento, torna-se inviável aceitá-las.

Entretanto, a terceira afirmativa vem para destruir completamente as duas anteriores.
A expressão "passar um camelo por um fundo de uma agulha" é, sem dúvida, um termo literal oferecendo completa impossibilidade, como muitas formas de expressões do mundo antigo, ou seja, para a época bíblica tais menções eram normalíssimas.
O que acontece é que o homem procura sempre tratar das coisas de Deus de forma mais branda possível, abraçados à teoria isolada de que Deus é somente amor, o que se deduz como um erro. Em suma, é praticamente impossível um rico entrar no reino de Deus. A reação do jovem o entrega:
"Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades." (Mateus 19.22).

2. Coar o mosquito e engolir o camelo (Mateus 23.24):
Talvez a passagem em apreço se destaque melhor como esquisitisse do que hipérbole. O fato é que tanto aqui como ali as palavras de Jesus causam inquietude pelo exagero, pela estranheza e pela verdade, mas não são inusitadas para a época, embora sejam para os dias atuais.
O capítulo 23 de Mateus é uma relação de advertências e censuras contra os escribas e fariseus. Aqui está a alusão mais completa desta passagem.
O versículo em referência traz a mesma significação do tópico anterior, tanto de exagero como de impossibilidades.
Eugene Peterson afirma sobre o texto que "a atitude cuidadosa tem o seu valor, mas o essencial é indispensável." Muitos se emoldam aos líderes impostores da época de Jesus, observando detalhes importantes, mas deixando passar erros grotescos.
A lição tirada aqui é sobre a má interpretação da Lei pelos escribas e fariseus. Quantos não interpretamos mal a Bíblia conscientes de estarmos apenas em busca de algo agradável, que se molde a nós?
Tanto o mosquito quando o camelo eram animais impuros de acordo com a Lei (Levítico 11.4,20). Os maus líderes que Jesus condena com a boa interpretação da Lei observavam certos delalhes, mas deixavam passar outras incoerências.

Portanto, "coar o mosquito" equivale a "tornar puro algo impuro" e "engolir o camelo" assemelha-se a "negligenciar uma verdade tentando escondê-la."
É notável que atualmente muitos tem tentado "coar" o que a Palavra define como impuro e "engolir" (deixar passar) pecados gritantes, seja na exposição da Bíblia, escondendo detalhes importantíssimos, seja nas músicas, destacando apenas o óbvio e colocando à parte o indispensável.
Fica claro que Jesus condena a "pureza" dos escribas e fariseus por causa do desleixo iminente. Esta é uma afirmativa bíblica que os impostores tentavam mudar a todo tempo e custo: "O amor [em Deus] encobre multidão de pecados" (I Pedro 4.8; Provérbios 10.4; Lucas 7.47), e não a observância (as cegas) da Lei. As palavras de Jesus confirmam isso: "Guias cegos!" (Mateus 23.24).
Triste é esta realidade em nossos dias e em nosso meio, mas não esqueçamos que a Palavra de Deus é pura e não muda nem mesmo com ardilosa manipulação humana (Provérbios 30.5; cf. João 10.35).

CONCLUINDO:
A Bíblia é um livro complexo, mas também completo. Sua boa interpretação é algo muito antigo (cf. Neemias 8.8) e extremamente aconselhável a nós, onde a própria Palavra nos orienta a tornarmos mestres (Hebreus 5.11-14).
Estar na presença de Deus requer temor, e estar diante da Sua Palavra é estar ante o Próprio. Tomemos cuidado ao interpretarmos a Bíblia Sagrada.



2 comentários:

Jhonny Marllon disse...

Parabéns, belo artigo e muito esclarecedor!

Jones de Lira disse...

Jhonny Marllon,

eu que agradeço pelas suas palavras.
Nossa intenção é justamente isso, promover o ensino claro da Palavra.
Deus te abençoe ricamente.