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domingo, 8 de março de 2015

Interpretando corretamente a Bíblia

Entrando, permanecendo e saindo da Bíblia
"Leram no livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia... Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra."  -  Ne 8.8; II Tm 3.16,17.



Qual a melhor forma de interpretar a Bíblia Sagrada? É necessário interpretar a Bíblia? É necessário saber interpretar a Bíblia? Para quê interpretar a Bíblia? Não posso simplesmente ler e dizer o que entendi? Não posso simplesmente ler e dizer o que achei? Perguntas assim são frequentes e precisam não apenas ser estirpadas do meio cristão, mas também ser respondidas.
Há, no tempo presente, uma queda na qualidade dos sermões oferecidos nos púlpitos. Muitas respostas podem explicar o porquê, mas é a partir da interpretação das Sagradas Escrituras que obtemos a principal delas.
Ouço por vezes pessoas questionarem o fato de se estudar Teologia. Muitos crentes antigos e até mesmo obreiros questionam o estudo sistemático ou disciplinar da Bíblia em caráter teológico. Tem líderes defendendo a ideia de que estudar teologicamente nao é necessário porque Paulo era indouto. Isso é um absurdo! Já ouvi diáconos afirmarem que a Teologia, como estudo da Bíblia, desvia o crente da glória de Deus. Isso é outro absurdo! Ora, se fosse assim, Paulo não teria sido o que foi; o maior contribuinte para os escritos no NT1, e há de se concordar que para que alguém possa escrever algo tão profundo e sublime acerca do reino de Deus é necessário muita dedicação (At 26.24,25)2, ainda que próximo da morte (II Tm 4.13).
O fato é que somente um profundo estudo teológico, com oração e jejum, independente de faculdade, mas com bastante dedicação, é capaz de fazer compreender os caminhos para a forma correta de se interpretar a Palavra de Deus. Acerca destes caminhos, a saber, eisegese, exegese e hermenêutica, discorreremos a seguir.

A Bíblia é o livro mais vendido, consultado e discutido no mundo por causa dos seus textos difíceis, contraditórios à opiniões alheias e polêmicos. Entretanto, uma grande parte das pessoas não possuem o entendimento mínimo aceitável para a perfeita e completa compreensão das Sagradas Letras. Isso é fato e inquestionável. Se Cristo afirmou que o fruto da árvore é o que mostra "quem" ela é, por esses frutos das pregações mundo afora, sabe-se de onde vem os absurdos teológicos (Mt 7.15-20).
O padre Luís Mosconi menciona a importância de fazermos uma leitura bíblica existencial (autêntica, sem colocar no texto bíblico coisas que não lhe são próprias), afetiva (com o coração, i.e., de peito aberto), contemplativa (vivendo e imaginando o texto), espiritual (com fé e pelo Espírito), orante (sempre com oração) e militante (na prática, guerreando contra nossa mente e sem hipocrisia)3. Mesmo sendo um líder de uma igreja que interpreta a Bíblia de forma negligente, não podemos deixar de concordar com a tese defendida por Mosconi, pelo menos acerca de como ler a Bíblia.
Contudo, somente nisso a leitura bíblica não se completa, ela exige métodos.
A palavra método deriva do latim methodus e do grego methodos e significa, respectivamente, maneira de ir ou de ensinar e investigar, ir atrás4.
Quais métodos são esses? Justamente eisegese, exegese e hermenêutica.
Cada um destes métodos são utilizados no processo de interpretação da Bíblia. A eisegese merece uma atenção à parte por alguns motivos particulares que são necessários para o aprendiz conhecer minuciosamente (veremos quais a seguir). Na falta de qualquer um destes métodos a transmissão da mensagem bíblica na sua essência é prejudicada (Js 1.8 - Veja importante reflexão deste versículo aqui).

Eisegese (entrando no texto):

A derivação grega dessa palavra, egeesthai, significa explicar, dirigir, conduzir. Contudo, o primeiro vocábulo eis (de eisegese) designa algo para dentro, i.e., de fora para dentro. Assim, o sentido é feito de maneira mental, premeditado, geralmente onde haja ensino5. Portanto, eisegese é quando alguém insere algo de fora para dentro, algo que deseja que ali esteja mas que não faz parte do texto original. Aqui está o cuidado em utilizar-se da eisegese no processo de interpretação bíblica. O estudioso deve ter o máximo de zelo possível para não cometer homicídio doloso contra o texto em análise forçando-o a explicar algo que na verdade não existe.
Muitos seguiam tradições humanas que utilizavam de algo parecido com eisegese de forma dolosa. Jesus respondeu para estes:
"Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." (Mc 7.6).
Esta tradição falava de Corbã, nome que se dava a um macete que os fariseus se utilizavam pela Lei (i.e., de forma maldosa) para não cumprir com as suas obrigações sociais e familiares (Mc 7.11-13). É como se aplicassem um pouco de fermento levedando toda a massa (Gl 5.9). Se não dominarmos a eisegese no seu eixo, toda a nossa interpretação será danosa.
Se vamos entrar no texto da Bíblia com algo, que seja um conhecimento que some ao encontrado ali, auxiliando na compreensão da mensagem e não distorcendo o conteúdo Sagrado, desviando as doutrinas santas, apagando a glória de Deus.
Pedro percebeu já na sua época esta maldade com o texto das Escrituras, sobretudo os de autoria paulina e advertiu os crentes a não caírem nessas falácias, aconselhando-os a crescerem na graça e no conhecimento de Jesus Cristo (II Pe 3.14-18). Percebemos com isso que a heresia se combate com enfrentamento munido de conhecimento (Tt 1.10,11).
Podemos afirmar que Jesus se utilizou da eisegese na sua essência ao interpretar um texto de Isaías com suas próprias palavras:
"Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável ao Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. Então passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a escritura que acabais de ouvir." (Lc 4.17-21).
Faz-se necessário, portanto, que o uso da eisegese seja de cunho fiel, inalterável, no que diz respeito ao cerne da mensagem em si. Se tivermos que entrar no texto bíblico, que seja de uma forma pura, respeitosa, reverente, buscando somar conhecimentos para a melhor e mais perfeita compreensão dele e não apenas com a vida ou o que quer que ela venha nos propor. Isto porque eisegese não se limita a experiências de vida (sejam dúvidas, curiosidades, sonhos, desejos, etc.) como forma ou motivo para adentrar à Bíblia, e sim um campo do saber necessário para a completa interpretação do texto bíblico, para conhecer o Autor da Bíblia, o Criador de todas as coisas, Deus, para que encontremos luz e sejamos como esta luz para o nosso próximo e para a glória do Senhor (Mt 5.14-16; I Pe 3.15; Cl 4.6). Utilizar-se da eisegese é simplesmente equipar-se de conhecimento histórico-cultural e "viajar" para a época em que as palavras de determinado texto bíblico foram escritas e o momento em que ocorreram os fatos que elas descrevem. Acerca disso, há prazer semelhante à estar (figuradamente) no local e momento exatos em que ocorreram específicos casos na Bíblia? Obviamente que não. Ir ao Texto Sagrado com algo é mover-se com reverência, e não com relativismo.
Quantos vão à Bíblia e a emudecem? Não tem paciência em ouvi-la e acabam tornando isto pior, colocando palavras que as Escrituras não dizem. Isto é pura irreverência no pior dos sentidos, seja na ignorância (ou não), na astúcia ou na perversão (Mt 4.6; Lc 4.10,11). Eisegese é ir à Escritura pronto a ser mudado por ela e não no intuito de muda-la, é levar nossos erros para serem corrigidos nela e nossos acertos para serem acrescidos por ela.
"Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade." (Jo 17.17).

Exegese (permanecendo e pronto para sair do texto):

A exegese é justamente o contrário da eisegese. Sua derivação grega vem de agein significando guiar, liderar, explicar, mas o primeiro vocábulo ex (de exegese) designa fora, para fora, isto é, de dentro para fora. O objetivo da exegese é trazer a perfeita compreensão do texto a partir de técnicas ou princípios gerais denominado hermenêutica, que veremos mais adiante.
O contraste entre exegese e eisegese está principalmente em que esta é mais aplicada no intuito de adaptar o texto às ideias do intérprete (sem destruir a didática da mensagem), enquanto que aquela exige que o intérprete (ou suas ideias) se adaptem ao texto. Parece contraditório, mas não é, porque um complementa o outro. Em eisegese o texto é adaptado de forma a fazer-se compreendido para o intérprete, não em mudar o cerne da mensagem para agrada-lo, por isso é complemento da exegese.
Se entramos no texto bíblico pela eisegese, permanecemos um bom tempo e depois saímos dele pela exegese, ou seja, mais precisamente tiramos dele a verdade preciosa que nos molda, e não o contrário. Exegese é um árduo trabalho que visa fazer com que aquele que entrou no texto saia de uma forma diferente, porque quando entrou, permaneceu lá por um tempo, ouvindo, aprendendo, reeducando-se, crescendo. Isto é o que o salmista chama de fidelidade ao texto (Sl 119.30).
Todavia, a exegese não é simplesmente tirar a verdadeira intenção do texto, é muito mais, é dialogar, conversar, perguntar, ouvir, aprender, testar, experimentar, etc., e tudo isso de uma forma fiel à informação disposta na Bíblia, uma vez que entramos nela com boa índole.
Observe ótimos exemplos de exegese proferida por aquele que nem precisava, mas fez questão:
"Jesus, porém, respondeu: Está escrito... Respondeu-lhes Jesus: Também está escrito... Entao, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito [...] Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito... Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito... Respondeu-lhe Jesus: Dito está..." (Mt 4.4,7,10; Lc 4.4,8,12).
Notemos a insistência da eisegese mal aplicada de Satanás frente ao Senhor Jesus citando as Escrituras, porém, a firmeza na exegese de Cristo ao mencionar “Também está escrito!” forçando o Diabo a se adaptar a originalidade do texto.


Hermenêutica (saindo e expondo o texto):

A hermenêutica é justamente a arte de interpretar um texto. Sua origem vem do termo grego hermeneutikós, significando interpretação. Deriva também de hemeneutes, que quer dizer intérprete e tem uma remota ligação com o deus grego Hermes, conhecido pela mitologia grega como o deus da eloquência responsável pelas mensagens “divinas”, tanto para leva-las quanto para interpretá-las. Os romanos o chamavam de Mercúrio.
A hermenêutica é a ciência responsável pela interpretação e explanação de textos principalmente bíblicos, ainda que útil noutras ciências como a Filosofia e na área jurídica, por isso deve ser estudada antes da exegese, visto que esta se utiliza dos princípios e regras daquela.
Se entramos no texto pela eisegese, permanecemos e saímos pela exegese, com a hermenêutica nós levamos adiante tudo conquistado nos dois primeiros métodos. É o mesmo que interpretar tudo quanto foi esclarecido anteriormente, com fidelidade, pureza, riqueza e completude do texto bíblico.
Encontramos a hermenêutica sendo utilizada pelos desbravadores Esdras e Neemias ao trabalharem juntos na reconstrução do culto verdadeiro a Deus:
“Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.” (Ne 8.8).
Usar a hermenêutica é explanar, expor o texto estudado para que seja perfeitamente compreendido pelos ouvintes. O que significa isso? Que a hermenêutica é a forma como passamos o conhecimento adiante, afinal, o que tiramos da Bíblia não é somente para nós (Pv 1.5; Rm 12.7). Aliado a estes métodos, outras disciplinas reforçam a ideia de passar uma mensagem, como no caso da Homilética e da oratória, e.g., que tratam basicamente da arte de pregar sermões e de como falar em público de forma eficiente e eficaz, assunto para outra discussão.
O estudo da palavra de Deus é importantíssimo, tanto para os líderes quanto para os subordinados. Para os despenseiros, o estudo da Bíblia pesa mais responsabilidade, pois eles tem a função, a incumbência de fazer registrar no coração das pessoas o conhecimento, porque da mesma forma que possuem tal responsabilidade, cairá sobre eles maior juízo (Tg 3.1). Deste modo, Paulo foi objetivo em afirmar:
"Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. Ora, além disso,o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel." (I Co 4.1,2).
Se toda a Escritura é inspirada por Deus, devemos levar esta inspiração de forma santa, porque Ele é santo. Pregação ou ensino da Palavra não é expor qualquer texto e sempre terminá-lo com a mesma conclusão; bênção, vitória, promessas. Pregar a Palavra de Deus é expor por completo todo o texto a fim de aplicá-lo naquilo que lhe cabe, com ordem e descência, com métodos e caminhos prescritos por Deus naquilo que nos foi entregue na Bíblia.

NOTAS SOBRESCRITAS:

1. Paulo escreveu ao todo 13 cartas dos 27 livros que compõem o NT;
2. É evidente que Paulo, assim como os outros autores da Bíblia, escreveram movidos pelo Espírito Santo, mas não apenas isso, houve, também, contribuições pessoais para a rica literatura bíblica (e.g. II Pe 3.15,16);
3. Para uma leitura fiel da Bíblia, Luís Mosconi, edições Loyola, p. desconhecida por ser um anexo da apostila de Introdução Bíblica do Seminário Teológico;
4. http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/metodo/ (acessado em 28/02/2015);
5. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, R. N. Champlin, Ph. D., Volume 2, Hagnos, 11ª edição, 2013, p. 311.

1 comentários:

erivan jose Eri disse...

excelente explanação do vocábulo eisegese, o desconhecia. Muito bom.