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sábado, 21 de março de 2015

Teologia Popular e Dogmática

Cegos teologicamente. Diga NÃO.
"Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema."  -  Gálatas 1.8,9.

Vivemos uma época de "vários evangelhos". Os sermões e as pregações tem tomado um rumo esquisito. Muitos tem se tornado cegos ou nasceram assim e permanecem até hoje, oferecendo uma teologia de difícil compreensão, i.e., uma mensagem sem lógica. O apóstolo Paulo e o Mestre Jesus, por exmplo, são ainda hoje alvos de incorretas interpretações: dizem que Jesus era comilão e beberrão e que Paulo não era estudioso, sendo que a Bíblia é clara quanto ao inverso (At 22.3; 5.34Mt 11.19; Lc 7.34)1.
Paulo, escrevendo aos insensatos gálatas, distribui maldições àqueles que lhes oferecessem "outro evangelho" (Gl 1.6-9). Escrevendo a Tito, ensinou acerca dos deveres e qualificações dos ministros (Tt 1.5-9), advertiu a respeito dos pairadores frívolos (Tt 1.10) e convocou à luta para fazê-los calar (Tt 1.11). Jesus, dentre tantas vezes que condenou os falsos mestres, chamou-os "guias cegos!" (Mt 23.24), que buscavam a pureza em certos pontos, mas que permitiam outros erros absurdos. Estes dois grandes nomes do NT nos mostram que a presença de evangelistas e líderes equivocados, na ignorância ou não, existe e é real.
A Teologia Popular e a Dogmática vem justamente confrontar esse tipo de ignorância sendo aplicada nos dias atuais. Aplica-se muito mais uma Teologia Popular desprovida de uma Dogmática, ou seja, sem escrúpulos, danificando o cerne da mensagem bíblica. Se no artigo anteriormente publicado neste blog (confira aqui) falamos dos métodos exigentes para a perfeita compreensão do Texto Sagrado, hoje falaremos das formas corretas de se aplicar tais métodos ao que chamamos de Teologia Popular e Teologia Dogmática, bem como suas definições.

Há muito o que se entender sobre ambas. Enquanto uma tem uma linha de raciocínio mais sistemática a outra possui um tom mais inteligível.
A Teologia Popular tem um certo “jeitão do povo”, mas não encerra aí. Embora sua base não seja destituída de uma teologia formal, conceituada, sistêmica, sua linha de pensamento é mais branda, acessível àqueles que necessitam de uma compreensão mais destrinchada. Nem por isso está errada, embora seja utilizada na maioria das vezes de forma incorreta.
A Teologia Dogmática, por sua vez, traz uma base acadêmica a flor da pele, mais completa, profunda, tematizada em doutrinas sistemáticas. Estuda-se na Teologia Dogmática disciplinas específicas como Bibliologia, Hamartiologia, Eclesiologia, Cristologia, Antropologia, Pneumatologia, Escatologia, etc.
As perguntas que não calam a respeito são inúmeras: Qual o uso correto da Teologia Popular? É possível se utilizar de uma teologia popular corretamente? E a Teologia Dogmática, deve ser a única aceita como padrão de estudo da Bíblia? É possível se utilizar das duas? A Bíblia demonstra ou dá princípios de utilização de uma delas ou das duas? Veremos adiante.

Teologia Popular:

É triste notar que durante gerações os cristãos tem se utilizado da Teologia Popular sem os devidos critérios (Tt 2.6), fazendo dela uma forma de viver muito mais por crenças e práticas herdadas dos antigos do que pela Bíblia em si. É mais fácil encontrar pessoas que até possuem uma Bíblia, mas infelizmente a tem como um livro de histórias antigas, um consolo em horas de infortúnios ou como uma fonte de autoajuda. Enfim, separa-se a Bíblia da vida, separa-se a Bíblia do povo, sendo que a Bíblia pode estar com as pessoas, mas não em suas vidas. Todavia, a Bíblia não é simplesmente um mero livro que contem livros, mas um recurso rico de princípios divinos que auxiliam nossa vida como um todo (II Tm 3.16,17).
Assim, compreendemos que a Teologia Popular, por mais que seja simples, deve conter métodos de interpretação, ou seja, sua chave hermenêutica é a vida, mas uma vida de conhecimento naquilo que se está pregando (At 8.30,31Rm 12.1,2). Contudo, nem por isso deve ser observada de longe como exclusa teologicamente. Observemos, por exemplo, a história da nação de Israel ao longo da Bíblia e percebemos a relação mútua das Escrituras e de Deus com o povo. Se analisarmos o Êxodo veremos a forma como Deus chama, prepara e envia Moisés para libertar os hebreus. Constatamos na caminhada do povo rumo à terra prometida as relações (conturbadas ou não) entre ele e as Leis de Deus, fitamos uma nação vivendo sob as ordenanças divinas. O objetivo não era simplesmente cumprir tais ordenanças por obrigação, mas por amor e gratidão. A Teologia Popular entra neste sentido como algo que deveria completar, facilitar, mas acaba subtraindo o foco. A vida dos hebreus deveria ser focada em agradar a Deus sem que para isso fosse necessário a simples observação à Lei. Por isso vemos não apenas um povo, mas uma nação inteira sendo levada à destruição própria por não respeitar os métodos de interpretação das Escrituras, e, com isso, desobedecenndo-a. Foi preciso Jesus esclarecer o real sentido da Lei.
"Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?" (Jo 5.46,47).

Teologia Popular é, portanto, a metodologia de ensino e orientação acerca da Bíblia numa linguagem acessível ao ouvinte de maneira que este entenda perfeitamente o objetivo da mensagem na sua condição indouta, sem, contudo, mediocrizar as doutrinas bíblicas. Vemos por este conceito que a Teologia Popular nada tem a ver com crendices populares, antes, com métodos simples que se aplicam à realidade de vida daqueles que a ouvem.
Observe:
"Um líder fazendo discursos, muitas pessoas escutando, outras chegando, outros falando, outros espalhados trabalhando sem ligar para nada. O líder fala: 'O povo unido jamais será vencido!'"2
Os freis responsáveis por esta adaptação relacionada à saída dos hebreus do Egito rumo a Canaã conseguiram atingir o ápice da compreensão popular por meio da arte. Embora o teatro, assim como outros tipos de arte (dança, gesto, etc.), não faça parte da liturgia do culto cristão como um ministério, é peça primordial para atrair pessoas. Isto é Teologia Popular, porque não pouparam a mensagem divina nem a destituiram da verdade exposta3Percebe a permanência da mensagem acerca do real acontecimento? Esta é uma sugestão de interpretação acerca do Êxodo em linguagem contemporânea sem subtrair o cerne da mensagem divina.
Agora observe isto:
"Por isso, lhes falo por parábolas; porque, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem entendem. De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías: Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis... para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados.” (Mt 13.13-15).
Podemos afirmar que isto também é Teologia Popular. Jesus contava parábolas4 para atingir o nível acadêmico decadente dos judeus de sua época. Aqui, Ele menciona o cumprimento da profecia feita por Isaías (Is 6.9,10) e demonstra no final de seu discurso a possibilidade de conversão daqueles que abrissem seus sentidos às Suas palavras. Parábola, então, é uma ilustração que Jesus se utilizava para aplicar sua doutrina, isto é, a partir de contos que ilustravam a vida cotidiana do povo de sua época com o fim de ensinar algo. Assim, uma parábola nem sempre é uma doutrina em si ou um acontecimento verídico, mas apenas uma alegoria contendo nela verdades doutrinárias5 que Jesus oferecia aos judeus. Por isso que afirmamos categoricamente que a chave hermenêutica da Teologia Popular é a vida6Assim, é digno de nota que deixemos claro o fato de que a Teologia Popular, apesar do nome, é uma arte de ensinar a verdade bíblica dependente da Teologia Dogmática.


Teologia Dogmática:

A Teologia Dogmática é mais conceitual, embasada, doutrinária e relativamente sistemática do que a Popular.
Dogmática vem de dogma (gr. dogma e raiz dokéo) e significa opinião, juízo ou parecer num sentido mais autoritário. A Teologia Dogmática é, portanto, a apresentação formal de dogmas sugerindo um sistema coerente, ordenado, fundamentado, acerca da tentativa de criar a ciência da fé cristã onde cada conceito é sistematizado. Sua principal ferramenta de estudo é a Bíblia, livro este que contem dogmas, isto é, doutrinas imutáveis que independem de linhas de raciocínios (diferente de fundamentalismo)7.
A Teologia Dogmática, que pode também ser chamada de Teologia Sistemática, tem como objetivo clarear as doutrinas bíblicas agrupando-as em ordem (sistemas). Entretanto, a Bíblia por si só não sistematiza suas doutrinas, cabendo aos eruditos a capacidade de organizá-las.
“A simples interpretação de passagens bíblicas tem produzido a fragmentação que testemunhamos atualmente na igreja cristã. A verdade jamais será simples assim.” (C E)8.
Isto nos faz entender que a Teologia Popular e a Dogmática se encontram na dependência que uma (Popular) tem da outra (Dogmática). Se Moisés não tivesse sido adequadamente instruído por Deus no monte, sistematicamente, não poderia jamais apresentar as ordenanças numa linguagem acessível ao povo. Semelhantemente, se Jesus não tivesse crescido em sabedoria diante de Deus e dos homens, sistematicamente, jamais teria, como homem, condições de oferecer ensinamentos inteligíveis aos indoutos ou aos cegos espiritualmente.
É evidente que a maior dependência didática é da Teologia Popular em relação a Dogmática, todavia, pode ocorrer o contrário em situações específicas. Percebemos isso no apóstolo Paulo, por exemplo:
“Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele.” (I Co 9.20-23)9.
E vemos que Paulo imitava a Cristo também em sua teologia:
“Deus enviou seu filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos.” (Gl 4.4,5).
Portanto, a incorreta utilização da Teologia Popular, isto é, sem o embasamento dogmático, pode incorrer ao desastre bíblico. Não que todas as pessoas precisem cursar um Seminário Teológico, mas que tenham um mínimo de conhecimento teológico-sistemático possível para não caírem nos desencontros conceituais acerca das doutrinas imutáveis da Bíblia.

NOTAS SOBRESCRITAS:

1. Percebemos pelas próprias declarações de Paulo que este era muito eloquente, versado na Lei, aos pés do mestre Gamaliel (aos pés significa que nos tempos bíblicos os alunos assistiam aula no chão enquanto o mestre aplicavas as disciplinas). Quanto a Jesus, o próprio expõe o incômodo que João Batista causava nas pessoas pelas suas roupas simples, sua vida desprovida de luxo e sua maneira de pregar. Semelhantemente, a forma como Jesus estava em contato com os pecadores, participando dos hábitos (que não denegrissem a Lei) provocavam neles declarações maldosas e mentirosas de que Jesus era comilão e beberrão, quando na verdade Ele apenas era amigo dos pecadores para salvá-los do pecado (cf. Mt 9.12; Gl 4.4,5);
2. Deus na vida do povo, Igreja de São Félix do Araguaia, Freis Carlos Mesters, Betto, Clodovis e Leonardo Boff, editora Vozes, 3ª edição, 1983, p. 44. Embora os referidos religiosos católicos sigam uma doutrina duvidosa quanto a pureza da Bíblia é importante perceber a aplicação perfeita de uma teologia popular na forma de teatro visando a atenção do público;
3. Consulte o livro referido na nota sobrescrita acima e perceba as riquezas de detalhes nesta obra: um passeio pela magnífica história de Israel até Jesus numa linguagem completamente acessível a qualquer leigo sem retirar a verdade teológica dos fatos;
4. Parábola é uma ilustração derivada de paraballo (provavelmente grego) que significa literalmente atirar ao lado, porém o mais certo é que venha do grego parabole significando colocar as coisas lado a lado, isto é, fazer uma comparação (Compreendendo todas as parábolas de Jesus, Klyne Snodgrass, 5ª impressão, CPAD, 2012, p. 32 e Dicionário Bíblico Wycliffe, Charles F. Pfeiffer, Howard F. Vos e John Rea, 12ª impressão, CPAD, 2012, p. 1457);
5. Confira as referências da nota sobrescrita 4, além de Hebreus 9.9 ARA: “É isto [o sistema do primeiro Tabernáculo] uma parábola para a época presente...”;
6. Isto é, a base para interpretação de quem ouve a mensagem divina sob Teologia Popular é a própria vida, ou seja, o conhecimento de mundo adquirido ao longo dos anos pelo indivíduo;
7. A Bíblia não é um dogma, mas contém dogmas. Por mais que o ser humano tente por suas próprias forças mudar certas doutrinas bíblicas é suficiente saber que não obterá bons resultados, porque a doutrina específica independe de épocas, cultura, usos, costumes, etc. (e.g. Hb 13.7-9 - onde o escritor mostra o exemplo dos antigos guias do povo de Deus que pregaram a Palavra confirmada por Jesus, que foi, é e será o mesmo para sempre. Isso é um dogma). Em relação ao fundamentalismo é de suma importâcia sabermos que a referência aqui é no sentido que beira ao radicalismo, i.e., não aberto de forma alguma ao diálogo sobre temas específicos e/ou que a Bíblia em si não deixa claro a respeito (no popular "bater o martelo");
8. Catholic Encyclopedia, Charles G. Hebermann, 1954;
9. Importante lembrar que, conforme os avisos, utilizamos os textos bíblicos da Almeida Revista e Atualizada (ARA), embora os links estejam dispostos na Almeida Corrigida Fiel (ACF).



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