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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quem disse que a minha religião é a única correta?

E o ponto de vista do outro?
"Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos."  -  Mateus 28.19,20.

Vivemos numa época muito difícil acerca do Cristianismo. A essência da teologia cristã que deveria trazer os fundamentos de Cristo e dos apóstolos está sendo minguada. Com isso a pregação do Evangelho tem sido mais concretizada por costumes e tradições do que pela base, i.e., Jesus (At 4.12; I Co 3.10,11).
Por vezes temos a missão de apresentar a nossa religião ao outro como a única aceitável ou a única verdadeira de forma inegociável. Precisamos mesmo disso? Temos um deus, temos um manual, temos adeptos e temos os costumes. Estes, na verdade, são basicamente todos os elementos (ou parte deles) que definem todas as religiões, diferenciando apenas na importância ou na hierarquia de cada um.
Mas o que caracteriza uma religião? O que é religião? Podemos definir religião como um aglomerado de culturas e crenças sob um sistema que define, mediante simbolismos, uma visão de mundo na tentativa de aproximar ou relacionar o ser humano com um determinado ser espiritual, além de tentativas de responder perguntas como "Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?"
A Sociologia como disciplina da Teologia tem o papel de trazer o conhecimento das relações humanas com o mundo geral na busca da compreensão de quem somos nós dentro das nossas religiões. É possível provocar o pensamento do discente em Teologia de que a religião do ponto de vista da Sociologia é apenas um conjunto de símbolos, tradições, usos, costumes, etc. que possui um fundamento muitas vezes mais cultural e tradicional a ponto de ser “indestrutível” pelas próprias leis locais. É o caso, e.g., de um cristão protestante tentar evangelizar um índio no Brasil. Por mais que a evangelização do cristão seja [ou tenha a intenção de ser] de forma consciente sem denegrir a religião e a cultura do índio, para a lei brasileira, em conjunto com o Estatuto do Índio1, pode causar uma violação na cultura indígena, ou seja, a prática do que muitos nomeiam proselitismo religioso2.

O proselitismo religioso, segundo informações de historiadores, nada mais é do que receber um novo membro numa religião vindo de outra3. O problema dessa prática começa quando os adeptos de tais religiões impõem, i.e., forçam, obrigam, metaforicamente falando, com articulações e boa lábia o outro a abandonar as suas práticas religiosas (e muitas vezes não admitem que são religiosas por ser “a outra”) para serem aceitos na sua “verdadeira” religião.
É importante mencionar que proselitismo não se limita à religião (algo imposto religiosamente em caráter extremista), mas também ao tema política bem como qualquer [outra] ideologia. No tema em questão ficaremos somente com o termo religião, obviamente.
A intolerância religiosa e a violência sobre o outro se torna perceptível quando há a imposição das práticas devotas caracterizando o que o sociólogo e teólogo Jeyson Messias Rodrigues chama violência simbólica4. Por que impor a nossa religião? Isso explica o ato da evangelização bíblica?

A visão sociológica frente a teológica:

Nunca paramos para analisar termos religiosos do ponto de vista alheio, i.e., destituído de religião. Não possuímos esse costume. Nenhuma igreja/religião propõe esta prática, o que é um erro. No entanto, a Sociologia contribui para a eloquência humana acerca de como o homem se comporta dentro da sociedade da qual está inserido. Ela analisa os grupos sociais fundamentados pela cultura local, costumes, práticas cotidianas, etc. e dentre tudo o que afeta o ser humano dentro de uma sociedade, a Sociologia também o analisa com um ser religioso, afinal, todos somos religiosos, pois foi implantado por Deus a sua Lei, de forma ao menos simbólica, dentro de cada um de nós (Rm 2.14,15). A Psicologia faz algo semelhante, mas de um ponto de vista mais individual e íntimo (psiqué) enquanto que a Sociologia o faz coletivamente. Noutras palavras, a Sociologia o investiga teórico-metodologicamente enquanto circunda os fenômenos socias.

A visão sociológica acerca da religião, bem como de outros aspectos da vida humana, é totalmente destituída de Bíblia. E precisa ser, afinal é uma ciência humana e necessita de uma ótica abrangente, panorâmica, livre de regras específicas para não corromper o seu resultado pós-análise sociológica, isto é, não fazer acepção de pessoas se quiser ter um amplo e legítimo estudo do comportamento humano, bem como resultados nobres.
A Sociologia propõe uma conversão religiosa sem, contudo, se importar com certos costumes e atos anteriores que sejam ofensivos à nova religião.
A visão teológica não tem como objetivo obrigar o novo membro do seu grupo religioso a abandonar incondicionalmente seus costumes, sua cultura, como muitos afirmam, pois seu “objeto” de estudo é Deus e obviamente a sua Palavra5 e ambos não propõe de forma contundente isso. Todavia, mudar de religião e não mudar alguns costumes é o mesmo que permanecer na mesma religião.
Como conciliar tudo isso? De que maneira devo administrar a forma como apresento a minha religião ao outro?
A igreja em geral minimiza todo esse processo mencionando o verbo de ação bastante forte evangelizar e, frequentemente, toca no assunto Ide de Jesus adicionando um imperativo sem direito a réplica: "o importante é ganhar almas!", como se fôssemos um Shang Tsun6.
"Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos." (Mateus 28.19,20).
Analisando o texto bíblico acima podemos obter algumas informações que servem de apologética à Teologia com respeito ao modo de apresentar-se religiosamente ao outro:

(1) Fazer discípulos de todas as nações envolve muitas pessoas, muitas culturas e muitas ideologias, sejam religiosas, políticas e até relacionados à costumes tradicionais, entre outros;
(2) Ensinar a guardar todas as coisas que o Evangelho dispõe e que Jesus nos ordenou tem pelo menos duas implicações: primeiro, tudo o que é doutrinário e faz parte da essência do Evangelho deve ser passado ao outro a fim de ser conhecido e não setenciado, ensinando e não impondo; segundo, não há uma ordem de abandono total e imediato de todas as práticas fora da religião cristã, com a exceção de alguns princípios descritos ao longo das Escrituras que, evidentemente, profanam a Lei, o que é totalmente diferente de "não pode isso, não pode aquilo" como se tudo fora do judaísmo fosse abominável para Deus (e.g. Jo 3.5-7; 4.21-23; 5.8-10; I Co 11.2-16; II Co 3.13-16; 5.17).
(3) Pelo menos na religião cristã oriunda do tempo de Pedro (At 11.26) a função dos encarregados de pregar o Evangelho é meramente pregar e não convencer o outro a aceitar a mensagem simplesmente, visto que nem mesmo Jesus convenceu a todos, embora tenha disponibilizado para todos as Boas Novas (Mt 13.53-58). Contudo, encontramos o apóstolo Paulo dissertando sobre o Evangelho (At 17.16-18) e o vemos considerando a religião do outro (judeus, epicureus e estoicos) uma idolatria, e dissertou (as versões ARC e ACF traz disputou)7. É de suma importância sabermos que Paulo defende seu ponto de vista de maneira inegociável especificamente aqui porque viu a realidade de Athenas de sua época, ou seja, há um contexto, há uma intextextualidade, há um fator pessoal e psicológico, ponto este que tem sido pouco abordado e defendido por teólogos, sociólogos, filósofos, antropólogos e psicólogos [cristãos]8:
"Paulo apreciava as estátuas de mármore, mas considerava os homens de carne e osso ainda mais valiosos. [...] O homem para o qual as almas imortais transcedentemente são mais importantes que as artes não é fraco, e sim forte. [...] Aos olhos de Paulo, a idolatria não era pitoresca e inofensiva, mas atroz."9
Afinal, disputar ou não?
O que ocorre é que Paulo naquela ocasião não foi apenas um teólogo, mas também um sociólogo ao expor sua indignação com o tratamento oferecido ao ser humano. Ele não viu apenas a oportunidade de executar a ordem do ide, ele foi além, viu a necessidade de mostrar que religião (cristianismo ou helenismo10) deve tratar o homem ao qual faz parte como um ser digno de respeito.


Alguns pressupostos que regem a forma como expomos nossa religião ao outro:

O homem tende a defender a sua religião por achar que é a única correta e a única que leva para um lugar ou objetivo de bem-aventuranças.
O ataque ao outro ou a sua religião é sempre munido de conhecimento da sua própria [apenas], isto é, com a sua ótica e não do ponto de vista do outro. Tentar compreender o outro seria um grande avanço sócio-religioso, mas o ideal mesmo seria observar (e não atacar) o outro a partir de um ângulo de visão desprovido de ambas as religiões, a princípio, para entender de forma pura como argumentar sem ofender. Isso traz conhecimento não somente da religião alheia como também de como principiar uma introdução daquilo que cremos. O argumento vem depois.
A necessidade de apresentar ao outro a nossa religião parte de alguns pressupostos:

(1) A primeira religião na sua essência histórica e etimológica11 foi a ligação entre o primeiro homem e Deus ainda nos primórdios da raça humana. Podemos perceber a relação de Adão com Deus caracterizando a primeira religião, portanto, a base de todas as religiões que Cristo em seu ministério terreno veio anunciar e resgatar (cf. Gn 1.27-30; 2.7-9,15-17; Jo 14.6,7);
(2) Ao longo da história humana, o homem foi desligando-se do Deus Criador de todas as coisas por desobediência (Gn 3.8; 6.3; cf. Rm 5.12e passou a decretar seus próprios deuses, suas próprias religiões e suas próprias crenças (Gn 6.1,2,5);
(3) Tais religiões, deuses e crenças vieram a tornar-se grandes mitologias, ciências, culturas, costumes, tradições, etc. É preciso mencionar que até mesmo o cristianismo foi afetado por tradições humanas. O próprio apóstolo Pedro, mesmo após a convivência com Cristo desde o início de seu chamamento e depois do episódio do derramamento do Espirito Santo no dia de Pentecostes ainda não aceitava o fato de que o Evangelho deveria ser oferecido também aos gentios, causando a necessidade de uma intervenção sobrenatural divina para que ele, de fato, compreendesse a verdade sobre o cristianismo (At 10.10-20,25-36);
(4) A vista disso, há uma pluralidade religiosa incontável desde os tempos antigos que se distinguem por regiões, épocas, raças, línguas, culturas, tradições, etc. que precisam ser levadas em consideração;
(5) A pluralidade religiosa sempre possui um crescimento ascendente ao longo dos séculos, formando bases fundamentais e tradicionais para a imposição de muito respeito por parte do outro e até de nações. É o caso, e.g., do judaísmo e do catolicismo romano. Todavia, isso não é suficiente para acreditarmos que tal religião seja verdadeira ou aceitável diante de Deus. É possível encontrar nos dias atuais vários seguimentos religiosos dentro de uma mesma religião. Então, qual o seguimento mais correto? Todos podem ser considerados corretos? O Pluralismo Religioso é quando não ocorre a hegemonia de uma mesma religião.

O Brasil é um país de muitas religiões, sobretudo a cristã. Entretanto, dentro dessa esfera encontramos diversas linhas de pensamento que propõe o que estudiosos chamam diálogo inter-religioso, uma forma de relacionar-se com outras denominações religiosas não-cristãs12 com certa tolerância.
Embora se saiba acerca da “religião original”, é necessário despir-se da prepotência, do “eu sou melhor do que você” e partirmos para o outro com mais amor e respeito. Não é permitido pela Lei Maior o ataque nocivo à alteridade religiosa, antes, porém, buscar o conhecimento da sua própria e da outra, com todas as fontes possíveis, é primordial para apresentarmos a nossa, que julgamos ser a verdadeira, a fim de que seja conhecida na sua essência e provoque no outro não apenas curiosidade, mas vontade incontrolável de fazer parte, embora a conscientização do outro concernente a nossa religião esteja bem definida em nossa mente como uma tarefa exclusiva do Espírito Santo (Jo 16.7-11).

Sobre o convencimento do Espírito quanto ao Evangelho, William MacDonald menciona a tarefa do Espírito Santo ao mundo de forma geral, não necessariamente ao indivíduo em si13Everett F. Harrison, por sua vez, expõe o convencimento do Espírito Santo de uma maneira mais causativa, i.e., o Espírito veio para convencer e culpar o mundo pela negação a Cristo Jesus, mas não apenas isso, também para ajudar a converter o indivíduo ao cristianismo original sem atacar ofensivamente o outro14.
Como cristãos precisamos saber que a nossa religião não é sectarismo (não precisamos ser obstinados, intolerantes), não é facção e nem dogma (embora tenha alguns elementos dogmáticos), ou qualquer movimento específico de algum lugar isolado da terra. Nossa religião é uma mensagem de convite à libertação do pecado e ao amor divino que deve ser compartilhada com todos.
Convertendo-se ao cristianismo, bem como a qualquer outra religião, é preciso abandonar algumas práticas, mesmo que isso ocorra aos poucos, para que seja, de fato, um novo membro (Gl 5.19-24; I Jo 1.8,9; Ap 21.8).
"Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados; nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado." (Hebreus 12.14-16).
Se a nossa religião é a única correta, não significa dizer que temos o direito de invadir a alteridade religiosa e impor a nossa. Nosso papel é falar com conhecimento amplo, ter o que argumentar. Se, porém, o outro vier a converter-se, temos um segundo papel a cumprir: recebê-lo e amá-lo.
"...antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo." (I Pe 3.15,16).




NOTAS SOBRESCRITAS:


1. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6001.htm (acessado em 29/04/2015);
2. Uma prática iniciada, segundo historiadores (ver nota de rodapé seguinte), na época do Pentateuco. Cada indivíduo de outra nação que não fosse Israel tomasse a iniciativa de participar da religião israelita caracterizava-o como um prosélito, i.e., um estrangeiro, novo convertido (e.g. Ex 12.48,49; Nm 9.14);
3. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, volume 5/6, R. N. Champlin, Ph. D., 11ª edição, 2013, editora Hagnos, p. 470;
4. Jeyson Messias Rodriguesmestrando em Ciência das Religiões (ULHT), docente do Seminário Teológico Batista de Alagoas (Brasil);
5. Considerando a definição de Teologia, theos = divindade, Deus; e logos = palavra, estudo;
6. Um personagem da série de video-game Mortal Kombat que foi amaldiçoado pelos seus deuses e condenado a roubar as almas das pessoas para sobreviver (http://pt.wikipedia.org/wiki/Shang_Tsung - acessado em 13/05/2015);
7. Provavelmente o termo grego utilizado aqui refere-se a argumentou, ainda que transpareça uma motivação emocional (“seu espírito se revoltava em face da idolatria”);
8. Isto é, teólogos com formação em ciências humanas;
9. The Church in the House: A Series of Lessons on the Acts of the Apostles, William Arnot, p. 379ss;
10. Temos plena consciência de que helenismo é muito mais uma filosofia nascida no período interbíblico e bastante propagada nos primeiros momentos da época de Jesus e seus apóstolos, mas pelos elementos desta cultura greco-macedônica e pelas definições já mencionadas, supomos que helenismo seja/tenha elementos para ser considerada também uma religião;
11. Considerando a origem da palavra religião (http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/religiao/ - acessado em 30/04/2015);
12. http://pt.wikipedia.org/wiki/Diálogo_inter-religioso (acessado em 30/04/2015);
13. Comentário Bíblico Popular, William MacDonald, AT e NT, 2ª edição, Mundo Cristão, 2011, p. 310;
14. Comentário Bíblico Moody, Everett F. Harrison, NT, edição de 2010, editora Batista Regular do Brasil, p. 262.



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