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segunda-feira, 22 de junho de 2015

O Período Interbíblico: Qual a sua importância?

400 anos de páginas em branco
"Ele, porém, não lhe respondeu palavra."  -  Mateus 15.23.

Não vamos comentar o texto de Mateus 15.23 como fazemos de costume aqui no blog, porém, o levaremos adiante apenas como informação bíblica de que muitas vezes Deus silencia. Todavia, o fato de Deus silenciar a sua voz possui motivos que podemos ou não ter conhecimento (Dt 29.29; Jó 9.3), mas não significa que ele não está fazendo ou permitindo alguma coisa. Cabe a nós tentar descobrirmos algo que Ele permita. Se Ele permite? Só saberemos se formos curiosos o bastante para pesquisarmos em meio às nossas orações.
O período chamado interbíblico ou intertestamentário é justamente um momento na história que podemos utilizar desta oportunidade, pois compreende um espaço de tempo entre o profeta Malaquias e o evangelista Mateus de 400 anos de silêncio divino1.
A importância de ter o conhecimento deste período faz toda a diferença na interpretação dos Evangelhos, embora seja um tempo vago na história bíblica, possui uma rica contribuição histórica que influi na sociedade que Jesus encontra nos seus dias.
O termo interbíblico significa entre a Bíblia ou entre os Testamentos, por isso é conhecido também como período intertestamentário por relacionar-se com o tempo entre o AT e o NT.
Enéas Tognini2 começa seu relato histórico do Período Interbíblico muito bem. Fala da dificuldade do povo de Deus em resolver seus problemas, da permissão do Senhor em deixar que diversos pontos da vida de muitos falhassem, que o materialismo, a corrupção, a desilusão, a promiscuidade, a depravação, o descuido, etc., tomasse conta da vida humana nestes desesperadores 400 anos de escuridão. Menciona também que o silêncio profundo de Deus, motivo pelo qual a desordem generalizou-se3, mudou radicalmente o rumo de todos, fossem o povo de Deus ou as nações gentias.
O ambiente exposto por Tognini fala do judaísmo no NT. A mudança radical, rudimentar, fraca e pobre que Paulo menciona em Gálatas 4.9 iniciou sua transformação ridícula no Período Interbíblico com “retoques” dos judaizantes acerca da Lei de Moisés, tornando-a mais rígida do que já era, tão pesada que nem eles próprios conseguiam cumpri-la. Provavelmente esta decisão foi tomada para tentar preservar a Lei, mas o povo e os próprios líderes religiosos nunca haviam, de fato, entendido a Lei (Jo 5.46), e, no espaço de tempo obscuro, conseguir manter ou voltar à linha correta era praticamente impossível. Eis então o ocorrido: a inserção de costumes herdados dos 400 anos obscuros como se fosse complemento da Lei, criando fardos sobre fardos no alto dos ombros dos indivíduos israelitas e da própria sociedade.
Creio que estamos vivendo um tempo meio que parecido, pois vemos que Deus tem a cada dia silenciado mais a sua voz nos ouvidos do seu povo, evidentemente por causa da existência da Bíblia Sagrada como sua Palavra completa e também pelo pecado que cresce no mundo (Jo 14.30), sem contar o fato de que os líderes das igrejas nos últimos anos tem pregado uma lei muito pesada, cansativa, levando a membresia de Cristo a exaustão e, na pior das hipóteses, a desistência da fé. Tal fato é realidade inquestionável, pois ainda vivi um tempo em que na igreja havia divisão: de um lado mulheres, do outro, homens. Jesus veio para corrigir estes absurdos, apregoando uma mensagem leve, i.e., de descanso (Mt 11.28-30). Isto significa que servir a Deus é fácil? Claro que não (Mt 16.24), mas as dificuldades em servi-lo existem noutros âmbitos, como na própria natureza humana, e não na dificuldade da Lei (Mt 10.38).

Sem sombra de dúvidas o cativeiro babilônico teve sua contribuição: mostrar as duas faces do povo de Deus, o cansado e desertor da caminhada e o persistente nela. O problema é que os dois são descobertos no NT. Jesus encontrou um povo obstinado pela cidade, mais nacionalista, patriota, tradicionalista, que havia esquecido o cerne da religião e se tornaram aficionados por temas polêmicos herdados pelos seus líderes e por sua cegueira espiritual. Talvez um trauma pelo que sofreram. Encontramos esta marca, por exemplo, em Paulo antes da sua conversão: disposto a matar, a cometer loucuras por um falso zelo religioso, por ódio. Pouquíssimos permaneceram no bom caminho. Pouquíssimos voltaram ao bom caminho.
Antes, durante e depois do cativeiro, percebemos que a nação judaica sofreu algumas intempéries. Antes do exílio falavam hebraico. Durante o exílio foram obrigados a falar aramaico e após a dispersão, de repente, são obrigados a falar grego, utilizar de toda cultura, arte, costumes e tradições gregas. Tudo imposição helenista, uma invasão grega obrigando geral. Isto é fruto das páginas brancas que separam AT e NT.
Surgem, então, as sinagogas como substituição ao templo que fora destruído e tendo a função sublime de ser o principal local de culto dos judeus.
Muitas organizações político-religiosas aparecem no cenário judeu, e sob as mãos cruéis do império Romano, as seitas crescem e amadurecem assustadoramente. Todavia, também foi possível encontrar em meio a toda essa confusão de ideias, números importantes de pessoas aguardando a vinda do Messias, graças as mensagens dos profetas passados que vaticinaram a respeito.

De forma geral, parece que o judeu realmente aprendeu a não adorar imagens. No cativeiro, o judeu morria por causa de idolatria, hoje, prefere morrer do que adorar a imagens.
Acerca dos principais registros, Enéas Tognini menciona o historiador e apologista judaico-romano Flávio Josefo, descendente por parte de mãe dos hasmoneanos (detalhes adiante), que nos assegura com significativa fidelidade muitas informações históricas a respeito do Período Intertestamentário e do judaísmo do primeiro século.
A elaboração dos apócrifos foi tão duvidosa quanto o seu conteúdo. Se os últimos profetas do AT emudeceram, o povo judeu sentiu-se decepcionado. Isso pode ter sido levado em consideração para a elaboração dos apócrifos: uma tentativa de preenchimento do vazio deixado por Deus4.
A canonização do AT estava sendo finalizada e aguardando somente os primeiros acordes no NT. Porém, ninguém poderia imaginar que o tempo até o início do NT (não os escritos, e sim os fatos) demorariam 400 anos. Neste tempo, houve a invasão dos livros apócrifos. A palavra apócrifo no grego (apokryphos) significa obscuro, escondido, não revelado, i.e., o contrário de revelado como, por exemplo, o livro de Apocalipse que foi revelado a todos5 que possuem um exemplar atualmente. Em latim o termo é: apochryphus significando desaprovado para leitura pública, secreto6.
Enquanto os protestantes rejeitam os apócrifos, os católicos romanos e as igrejas ortodoxas (extremistas) aceitam e preferem, denominando-os deuterocanônicos, i.e., segundo cânon7 ou cânon repetido (também conhecido como pseudo-canônicos).
Nesta pausa divina de 400 anos, alguns estudiosos dividem o Período Interbíblico em quatro pontos distintos que os veremos a seguir: o período persa, o período grego, o período da independência e o período romano.


1. O período persa (430-322 a.C.):

Israel caiu e foi cativo. No seu auge, a Pérsia, grande potência mundial por cerca de 200 anos, abateu a nação israelita. Artaxerxes I, Xerxes II, Dario II e Artaxerxes II foram os que governaram neste período8. Neemias foi copeiro de Artaxerxes I entre 465 e 424 a.C. e reconstruiu Jerusalém neste tempo (provavelmente em 444 a.C. – cf. Ne 2.1-11)9.
Cerca de 331 a.C., o período persa caiu sob o governo de Dario III10.
A referência bíblica de Neemias como copeiro de Artaxerxes I é uma das menções mais próximas do início do Período Interbíblico, cronologicamente falando, assim como, e.g., as setentas semanas de Daniel (Dn 9.24-27) e os setenta anos de Jeremias (Jr 25.11)11.


2. O período grego (321-167 a.C.):

Compreende o período dos Ptolomeus e Selêucidas, a crescente potência dos gregos.
Com a queda dos persas, o poder mundial passou da Ásia para o Ocidente pelo nome de Alexandre, o Grande, que com apenas 20 anos assumiu o poder do exército macedônio e reduziu num breve espaço de tempo as grandes nações como o Egito, a Assíria, A Babilônia e a Pérsia.
Alexandre conquistou a Palestina, poupando Jerusalém e disseminando a língua e a cultura gregas em 332 a.C.
Após sua descuidada e precoce morte aos 33 anos, Alexandre deixa um suntuoso reino dividido para seus quatro generais, atendendo à profecia de Daniel 11.4. Duas partes se destacaram. A Síria ficou com Selêuco (monarca helenista da Síria)12 e o Egito com Ptolomeu (dinastia ptolemaica que governou o Egito entre 305 e 30 a.C.)13, também complementando a profecia de Daniel 11.5. Em relação ao Período Intertestamentário estes dois reinos se destacam (sabendo que houve outras formações de reinos ao longo do período grego)14.
Neste período houve dispersão judaica, mas também meios de tradução do AT hebraico para o grego, que veio a ser conhecida como Septuaginta (LXX)15, atendendo a obrigatoriedade da língua grega pelo império romano16.
De 175 a 164 a.C., Antíoco Epifânio perseguiu severamente os judeus a fim de reduzi-los a pó juntamente com a sua religião fazendo cumprir mais uma profecia de Daniel 11.21,31, além de profanar o Templo, sacrificando porcos no altar17, tornando-se o mais vívido tipo do Anticristo no AT (de forma profética, já que isto veio a se cumprir no período entre os Testamentos).


3. O período da independência (167-63 a.C.):

Compreende a revolta dos Macabeus18 em 168 a.C. devido às atrocidades de Antíoco Epifânio resultando na independência de Israel. Este período também é conhecido como período macabeu ou período hasmoneano19.
Judas, o filho de Matatias mais preparado belicamente, reuniu as forças necessárias e retomou a libertação dos judeus, além de reconsagrar o Templo. Este fato tem causado a comemoração desde então da festa da Dedicação. Foram cem anos de liberdade até 63 a.C. quando os romanos conquistaram a Palestina.


4. O período romano (63 a.C. - até os tempos de Jesus):

A intromissão de Roma ocorreu em 63 a.C. comandada por Pompeu Magno (general político romano também conhecido por Pompeu, o Grande, idumeu20). Antípatre21 foi quem iniciou a era herodiana tão conhecida nos Evangelhos. Dentre as muitas loucuras dos líderes romanos podemos citar a famosa passagem no segundo aniversário de Jesus quando Herodes, o Grande determinou a matança de todas as crianças nascidas há pelo menos dois anos22. O filho mais novo de Herodes Magno foi Herodes Antipas, que reinou no período em que Jesus morreu e ressuscitou.

O Período Interbíblico teve suas obscuridades e lições. O estudo a respeito deste período é de suma importância para uma melhor compreensão dos escritos do NT, em especial os evangelhos, mas sem subestimar os outros escritos neotestamentários. Cabe ao estudioso bíblico buscar fontes históricas fiéis acerca do assunto para o melhor entendimento. Quanto maior informações reunidas sobre tal período em busca de uma compreensão maior de citações neotestamentárias, melhor.
Se lembrarmos de Jesus curando aquele paralítico de Betesda, e.g., o vemos obedecendo a ordem de Cristo, levantando-se, tomando o seu leito e indo embora (Jo 5.8,9). Os judeus que o viram curado naquele dia sétimo o advertiram dizendo que no sábado era ilícito carregar um leito (Jo 5.9,10). Ora, em nenhum lugar a Lei afirma tal aberração. Isto se formou como costumes e tradições herdadas do Período Interbíblico. Esta foi uma das causas do embate entre o discurso de Jesus e a religiosidade extrema dos judeus em todo o seu ministério.
Sabendo disso, tehamos nós o maior cuidado possível ao interpretarmos certas passagens do NT, para não criarmos doutrinas erradas ou mensagens heréticas, por isso a insistência: cabe ao estudioso bíblico buscar fontes históricas fiéis acerca do assunto para o melhor entendimento do mesmo e dos resultados de sua influência.
"Ouça o sábio e cresça em prudência; e o instruído adquira habilidade." (Pv 1.5).


NOTAS SOBRESCRITAS:


1. Mais precisamente, segundo biblicistas, entre os textos de Malaquias 3.1 e Mateus 3.1;
2. Período Interbíblico, Enéas Tognini, 2009, editora Hagnos (anexo disponível na apostila do SETBAL). Pastor batista, Tognini foi um veterano desta igreja no Brasil, um dos ícones do avivamento espiritual que iniciou nos anos 1960 a Convenção Batista Nacional (CBN);
3. Não que Deus tenha sido o causador da desordem, mas o fato de o Senhor silenciar por um longo período fez com que o homem perdesse o rumo das coisas e que viesse a se tornar o principal canal destruidor da própria vida, bem como a do próximo;
4. Importante lembrar que os apócrifos também fornecem alguns dados de cunho histórico, embora não sirvam como Palavra de Deus;
5. Isto é, tornou-se acessível (cf. Ap 1.1);
6. http://origemdapalavra.com.br/site/palavras/apocrifo/ (acessado em 09/03/2015);
7. http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/apocrifos_analisando_geisler.htm (acessado em 09/03/2015);
8. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, R. N. Champlin, Ph.D., Volume 5, Hagnos, 11ª edição, 2013, p. 226;
9. Dicionário Bíblico Wycliffe, Charles F. Pfeiffer, Howard F. Vos e John Rea, CPAD, 12ª reimpressão, 2012, pp. 1349 e 1350;
10. Ver nota sobrescrita 8;
11. É importante perceber alguns detalhes como o fato de alguns dos profetas do AT serem comtemporâneos e que os livros de Jeremias e Daniel, e.g., terem sido escritos no Exílio, i.e., após a destruição do Templo judeu pelo rei da Babilônia Nabucodonosor II (Comentário Bíblico Moody, Volume 1, AT, Charles F. Pfeiffer, 1ª impressão, 2010, editora Batista Regular, p. 1084; Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, R. N. Champlin, Ph.D., Volumes 1 e 2, Hagnos, 11ª edição, 2013, pp. 316 e 351 - vol 1 - e pp. 14 e 15 - vol 2);
12. Nome dado a seis monarcas helenistas da Síria, sendo que quatro destes obtém mais importância no cenário bíblico nos períodos entre 358 e 175 a.C. (Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, R. N. Champlin, Ph.D., Volume 6, Hagnos, 11ª edição, 2013, pp. 142 e 143);
13. http://pt.wikipedia.org/wiki/Dinastia_ptolemaica (acessado em 08/03/2105);
14. Veja nota sobrescrita 8;
15. O símbolo LXX significa 70 em algarismo romano e a palavra septuaginta significa setenta (grego). Isto é uma alusão ao que dizem os historiadores que a Septuaginta foi traduzida do hebraico para o grego por setenta e dois anciãos em menos de setenta e dois dias;
16. As línguas oficiais do império romano na época era tanto o grego como o latim;
17. Segundo a Lei de Moisés, o porco era um animal impuro, sendo assim, em hipótese alguma deveria ser utilizado para sacrifício (Lv 11.7; Dt 14.8);
18. Integrantes de um exército rebelde judeu liderados por Matatias em 168 a.C. Cada filho ou membro importante do exército de Matatias levava o sobrenome Macabeu (http://pt.wikipedia.org/wiki/Macabeus - acessado em 08/03/2015; Dicionário Bíblico Wycliffe, Charles F. Pfeiffer, Howard F. Vos e John Rea, CPAD, 12ª reimpressão, 2012, p. 1191);
19. O nome da família dos Macabeus também era Hasmon (ver nota sobrescrita 8);
20. O mesmo que edomitadescendente de Edom (Esaú – Gn 36.1);
21. Ou Antípatro. Era pai de Herodes, o Grande (http://pt.wikipedia.org/wiki/Antípatro_(pai_de_Herodes) – acessado em 08/03/2015);
22. Herodes, o Grande (ou Herodes I) era rei-cliente de Israel, uma espécie de rei de uma nação dependente de Roma em assuntos políticos atingindo a Eurafrásia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Estado_cliente#P.C3.A9rsia.2C_Gr.C3.A9cia_e_Roma – acessado em 09/03/2015).

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