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sábado, 26 de setembro de 2015

Introdução à personalidade - ID, EGO, Superego e o cristão

Personalidade: controlar sim, mudar não.
"Vendo isto, os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?"  -  Lucas 9.54.

Antes de qualquer coisa, por favor, leia este aviso: [http://goo.gl/GW1BGO].

Entende-se por personalidade as características que formam a individualidade de cada ser humano, i.e., o ato de pensar, sentir, agir, reagir, se comportar, etc. Todos nós possuímos uma personalidade única. A parte da Psicologia que se ocupa em estudar a personalidade é a Psicologia da personalidade ou Psicologia diferencial.
Embora se assemelhe de forma bem distinta de pessoa para pessoa, a personalidade nunca é idêntica e deve ser percebida como semelhante, mas de forma bem remota, ou seja, estamos falando de traços da personalidade e não da personalidade em si. Os traços da personalidade existentes em determinados indivíduos podem lembrar os de outra pessoa, porém nunca serão os mesmos.
A formação da personalidade é gradativa, complexa e única, segundo a maioria dos psicólogos. Inicia no primeiro ano de um bebê e passa por uma fase de maturidade ao longo do desenvolvimento de todo o organismo. Acredita-se que cerca de 40% da personalidade humana é adquirida mediante herança genética e os restantes 60% pelo ambiente e forma de vida em que o indivíduo é/está inserido1.
Todos nós temos uma personalidade (isso já está claro), mas quando alguém diz, por exemplo, “tal pessoa não tem personalidade” está se utilizando de ditos do senso comum totalmente fora do conceito científico da Psicologia2.
Na Bíblia encontramos diversas personalidades, evidentemente. Podemos citar desde a ingenuidade adâmica antes da Queda até o temperamento pomposo e revelador do último apóstolo. A questão é: estes homens, assim como qualquer indivíduo, sempre alimentaram uma mesma personalidade própria ou mudaram-na? Ou, na verdade, moldaram-na? São questões que a Psicologia, principalmente, assim como a Antropologia, a Sociologia e a Filosofia contribuem para as devidas [ou mais aceitáveis] respostas. Aqui, analisaremos dois personagens bíblicos excêntricos: Tiago e João.

1. Os filhos do trovão:

Tiago e João eram irmãos, filhos de Zebedeu (Mt 10.2). Zebedeu é a forma grega de Zebadias, um pescador galileu casado com Maria Salomé (Mt 27.56; Mc 15.40), uma família com bens suficientes para possuir empregados (Mc 1.19,20). A relação entre João e o sumo-sacerdote também nos sugere sua posição social (Jo 18.15).
O evangelista Marcos relata que Jesus deu o nome a ambos de Boanerges que significa filhos do trovão (Mc 3.17). Esta alcunha ou apelido que Jesus deu aos filhos de Zebedeu, provavelmente, atribui-se ao fato de suas características físicas e psicológicas, tendo em vista que o sentido da raiz dessa expressão é incerto. Todavia, subentende-se que pelo menos dois pontos são importantes para tentarmos discernir sua origem: (1) Eles tinham uma grande força física e intelectual e (2) eles eram revolucionários políticos do grupo dos Zelotes. Esta última hipótese seria a mais duvidosa, levando em consideração que os evangelhos mencionam um dos discípulos, a saber, Simão, como membro deste grupo político chamado Zelote (e.g. Mt 10.4), da qual concluímos que se Tiago e João, ou um deles, fossem realmente membros dos zelotes, obviamente estariam relacionados juntos com Simão.
A primeira hipótese, portanto, fica mais evidente pelo fato de Tiago e João terem sido homens de porte físico avantajados, intelectualidade bem distribuída e, sendo zelotes ou não, possivelmente formados de uma personalidade forte. Existe ainda uma distante crença na mitologia grega de que o apelido se refira aos dois filhos gêmeos do deus do trovão (Zeus) chamados dióscuros. Na cultura mitológica grega os dois filhos de Zeus eram conhecidos como dióscuros e ligeiramente como polideuces ou ainda tindáridas, em latim era castor, castores, gêmeos ou pollux3. Sim, Jesus poderia muito bem se utilizar de uma crença mitológica para tratar de alguns assuntos e não necessariamente pregá-la. Seriam, portanto, Tiago e João irmãos gêmeos? Embora o NT quase sempre mencione primeiro Tiago depois João, com raras excessões (Lc 8.51; 9.28; At 1.13), talvez insinuando que João fosse mais novo, estas raras excessões podem sugerir que eram, de fato, gêmeos4. Isso não acrescentaria em nada na nossa discussão.
Obviamente o termo filhos do trovão tem a ver com o temperamento dos "Boanerges". A forma como foram criados talvez tenha contribuido com um pouco de arrogância por sentirem-se abastados e com a sensação de prepotência. Noutra ocasião eles pediram (determinaram, na verdade) que Jesus vos concedesse que se assentásseis ao seu lado em sua glória, um à esquerda, outro à direita: uma completa insolência (Mt 20.20-22; Mc 10.35-39).
O fato é que ambos possuiam fortes personalidades, tendo em vista a reação diante da intolerância dos samaritanos: "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?" (Lucas 9.54). Jesus, porém, respondeu: "Vós não sabeis de que espírito sois. Pois o filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las." (Lucas 9.55,56).


2. Traços da personalidade - O que pode ser mudado?

Percebemos claramente que Jesus reprova a atitude dos "Boanerges". Obviamente temos aí uma demonstração de personalidade, sobretudo o aspecto especial interligado ao comportamento humano, i.e., o temperamento. O temperamento está contido no que chamamos traços da personalidade, ou seja, alguns aspectos que constituem a personalidade de alguém.
Se a reação de Jesus à postura de Tiago e João foi de reprovação, significa, obviamente, que algo está errado. Seria o caso de ambos os filhos de Zebedeu mudarem de personalidade? Aliás, é possível mudar a personalidade?
Alguns nomes destacáveis na Psicologia, na Psiquiatria, na Psicoterapia e na Psicanálise como Carl Yung (1875-1961), Karen Horney (1885-1952), Harry Stack Sullivan (1892-1949), Erik Erikson (1902-1994), Carl Rogers (1902-1987) e Alfred Adler (1870-1937), e.g., lideram estudos sobre o tema. Erikson afirmava que a personalidade está em constante formação até o fim da vida. Rogers, Adler e Horney acreditavam na capacidade de aperfeiçoamento da personalidade ao longo da vida, i.e., teríamos uma predisposição a sempre nos tornarmos pessoas melhores5. Yung destacava um inconsciente coletivo através de memórias de ancestrais. Ao que parece, nenhum desses renomados estudiosos insinuam a mudança [em si] da personalidade, mas um aperfeiçoamento, no que se refere aos traços da personalidade.
Sigmund Freud (1856 - 1939) poderia nos ajudar muito mais com esta questão. O criador da Psicanálise, neurologista e descendente de judeus, pode eficientemente nos atender com algumas estruturas psicanalíticas deixadas por ele: o ID, o EGO e o Superego. Estas estruturas ou métodos da Psicanálise freudiana são modelos de funcionamento da mente humana (psiqué) que possuem íntima ligação com a personalidade.

• ID: Uma espécie de fonte de energia psíquica de uma pessoa localizada no inconsciente da mente e ligada principalmente à libido, ou seja, instintos relacionados à sexualidade que impulsionam o organismo a procura do prazer em contraste com o sofrimento. O ID é basicamente a parte da mente humana que tenta evitar ao máximo qualquer sofrimento, especialmente psíquico. Freud chamou de “um caos, um caldeirão de excitamento fervente” por entender que o ID é uma atividade mental numa forma infantil, imatura, porque não distingue o real do irreal. Os sonhos, segundo Freud, também são manifestações do ID porque traduz um desejo inconsciente. O fato de estar no inconsciente da mente significa que o ID não conhece a realidade objetiva, a “lei” ética e social que nos prende a determinadas situações advindas do mundo externo.
Numa linguagem mais acessível, o ID é a parte da nossa consciência (ou personalidade) que não conhece a moral nem os limites sociais. É quando cometemos absurdos originados em nossa mente como desejar sexualmente alguém que não nos “pertence” (Mt 5.28), mas não apenas no sentido sexual. Por exemplo: Ao pensarmos em um prato de comida extremamente suculento num momento de muita fome, “água” se forma em nossa boca como uma resposta do organismo à imagem do prato projetada na mente e o maior desejo naquele momento, instintivamente, é avançar literalmente na comida e saciarmos a nossa fome, seja uma atitude educada ou não.

• EGO: É o responsável pelo contato do interior (psiqué) com a realidade externa. O EGO trabalha em resposta ao ID por ser a parte da mente humana que traz equilíbrio buscando no mundo externo algo real para utilizar estrategicamente através do processo secundário como uma resposta, uma correção, uma reformulação e, assim, satisfazer os desejos do ID. O EGO trabalha com o princípio da realidade, bem diferente do ID. Como componente psicológico da personalidade, o EGO possui funções básicas como a percepção, a memória, os sentimentos e os pensamentos. Está localizado, evidentemente, na parte consciente da mente. Por ser uma resposta ao ID, o EGO só existe por causa dele.
Há quem acreditasse, Ayn Rand, e.g., escritora, dramaturga, roteirista e filósofa de origem judaico-russa, que o egoísmo difere um pouco do egocentrismo. Como "mãe" do objetivismo,6 Rand defendia que o objetivo moral da vida humana é atingir a própria felicidade ou interesse racional, sem, contudo, deixar de ajudar o próximo, seja referente à vida, liberdade, propriedade ou busca da felicidade, comungando com o conceito de laissez-faire, i.e., um pensamento moderno do capitalismo (liberalismo econômico).7 Este seria o conceito, segundo Rand, de egoísmo, algo diferente do que o senso comum costumeiramente negativiza. O "ser egoísta" contribui positivamente para a sociedade porque desfruta de um certo prazer em ajudar as pessoas semelhante ao altruísta, só que visando seu interesse próprio. Não vejo semelhança nisso.
O egocentrismo, por sua vez, é a priorização da ação do egocêntrico (ou egocentrista), da razão própria acima da razão alheia. É achar-se prepotente, melhor do que o outro. O egocentrismo é a caracterização do egoísmo, de acordo com Rand.

• Superego: Assim como o EGO existe por causa do ID, o Superego existe por causa do EGO, além de ser o seu censor, i.e., aquele que censura, critica, avalia. Ocorre em situações como, e.g., quando uma criança sofre um castigo dos pais por cometer algo errado várias vezes, alertando que não deve mais praticar tal ação. O Superego avisa o EGO acerca dos limites impondo equilíbrio [mental], ou seja, dependendo da sua resposta, este recebe daquele uma recompensa quando seu comportamento é elogiável e sentimento de culpa quando é excessivo. Por mais que o EGO seja um equilibrador do ID, pode falhar num momento de excesso ou insuficiência. O Superego vem justamente para oferecer-lhe complemento ou subtração.
Compreendendo melhor, o Superego é a parte da nossa consciência (ou personalidade) que acusa quando cometemos um deslize ou nos faz sentir orgulho por uma boa obra realizada.

Tanto o ID, o EGO e o Superego são peças importantes para a formação e existência da personalidade. A vista disso podemos concluir que a personalidade em si não sofre mudanças, todavia, suas características sim: alguém que foi tímido na infância e adolescência, e.g., pode se tornar uma pessoa mais extrovertida na vida adulta, não sofrendo, com isso, uma transformação em sua personalidade, e sim em suas características (neste caso, a forma de interagir com o outro). Ela continua tímida como de origem, porém aprende a dosar seu comportamento no ambiente em que se inseriu.
Com isso, a dinâmica da personalidade, segundo a maioria dos psicólogos, denota a forma como as pessoas se adaptam às situações da vida, isto é, não necessariamente transformar, e sim moldar, conciliar, adequar alguns traços da personalidade ao ambiente em que está inserido.
Assim, personalidade é tudo aquilo que está relacionado com habilidades sociais, a forma como cada indivíduo apresenta-se ao outro mediante uma personalidade agressiva, passiva ou tímida.
Há vários seguimentos e linhas científicas acerca da personalidade humana, todavia, uma definição que a grande maioria dos psicólogos aceita é que "a personalidade é aquilo que ordena, que harmoniza todas as formas de comportamento do indivíduo, i.e., equivale a aspectos únicos ou individuais do comportamento."8


3. O temperamento dos filhos do trovão:

O contexto que Lucas expõe no capítulo 9 e nos versículos 51 a 62 é referente a atitude de um cristão.
Jesus reprova a atitude de Tiago e João (vv. 55,56) mesmo não tendo sido recebido pelos samaritanos. Ora, Jesus era judeu e a aldeia em que se encontrava ali era de samaritanos. Os samaritanos não se davam com os judeus e Jesus tinha a intenção de ir a Jerusalém. Devemos recordar que entre os judeus e os samaritanos havia uma discórdia quanto ao lugar sagrado: os de Samaria não se consideravam judeus e afirmavam que o monte Gerizim era o lugar de adoração (Jo 4.20) enquanto os judeus diziam que em Jerusalém é que se devia adorar.9 Esta antipatia fez com que os samaritanos não recebessem Jesus em vossa aldeia por conta do impasse histórico-religioso (cf. Dt 11.29; Js 8.33), o que causou a reação de Tiago e João.
Precisamos entender a princípio que o termo destacado a seguir que Lucas utilizou quando Jesus disse: "Vós não sabeis de que espírito sois" (v. 55), significa etéreo (gr. pneumatikos ou pneumatos). A palavra etéreo designa o homem que não é grosseiro, i.e., aquele que destila educação, pompa, ou aquele que é prodigioso, elevado, sublime, etc.
O que o texto tem a nos dizer é que a personalidade de um cristão deve ser uma personalidade de graça e de verdade, amor e luz, justiça e paz em perfeito equilíbrio com o que Cristo havia ensinado (vv. 55,56). A personalidade graciosa é quando se entende que a obra missionária de Jesus não se restringe a algumas pessoas (cf. vv. 49,50), a personalidade da verdade é quando se tem a consciência de que a obra de Deus é exclusivamente de Deus e por isso é, de fato, verdade (cf. Mt 12.30; Lc 11.23; Tg 2.9,10), a personalidade tolerante nada tem a ver com aceitar as incoerências humanas, mas compreender a possível limitação psíquica do semelhante e tratá-lo com respeito (cf. I Jo 4.20; Mt 5.43-48; Rm 14.1), a personalidade altruísta, e não egoísta, é quando se cumpre o amor e sacrifício pelo próximo (Jo 10.11; 13.14-17). Estas devem ser as características do genuíno cristão.

Se a psicanálise freudiana analisa todo o esquema da psiqué humana, o indivíduo piedoso, especialmente o cristão, deve nutrir a capacidade de domínio próprio, característica do fruto do Espírito Santo que age no seu interior (Gl 5.22,23; II Pe 1.5-8), e não se tornar ou permanecer um completo transgressor, rebelde, irreverente, pecador, ímpio, profano, parricida, matricida, homicida, impuro, sodomita [...] ou tudo quanto se opor à sã doutrina, i.e., o Evangelho da glória do Deus bendito (I Tm 1.8-11).



NOTAS SOBRESCRITAS:

1. BORELLA, Cesar A. S. Mudar a personalidade: é possível?. Psicólogo SP.com, jul. 2013. Disponível em: [http://www.psicologosp.com/2013/04/mudar-personalidade-e-possivel.html]. Acesso em: 21 ago. 2015.
2. Senso comum pode ser definido também como psicologia ingênua, i.e., convicções adquiridas através de um sistema de vida cotidiano sem a preocupação acadêmica, experiências próprias e suas causas que dão a capacidade de “discernir” popularmente as características pessoais como formação da personalidade, um conceito totalmente fora do ambiente científico que não possui eficiência nem eficácia, neste caso.
3. CASTOR e Pólux. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: [https://pt.wikipedia.org/wiki/Castor_e_P%C3%B3lux]. Acesso em: 24 ago. 2015.
4. Imaginemos que Tiago tenha nascido primeiro e João momentos depois. Vale mencionar que são apenas hipóteses.
5. BORELLA, Cesar A. S. op. cit.
6. Escola filosófica do século XX que afirma que a realidade existe independente da consciência, mas através dos sentidos humanos, mediante a formação de conceitos, da lógica dedutiva e indutiva.
7. A palavra laissez-faire é de origem francesa e significa deixar fazer, deixar ir, deixar passar, sugerindo uma liberdade, neste caso, referindo-se ao mercado capitalista.
8. INTRODUÇÃO à Psicologia..., 2015).
9. Essa discórdia existe até hoje nos mais extremos ambientes judeus.

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