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sábado, 17 de outubro de 2015

Deus se arrepende?

Sou homem para que me arrependa?
"Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez."  -  Jonas 3.10.

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A velha discussão sobre a inerrância da Bíblia e a possibilidade de ela se contradizer durante seu decurso ainda permeia o século XXI, e com mais voracidade ainda pelo fato de que as mais variadas linhas de pensamento teológicas lutam para obter o seu espaço no meio evangélico. Procura-se muito erros e contradições que deem margem à afirmações de que a Bíblia não é a Palavra inerrante de Deus. Pensando nisso, o mesmo método para entender o "arrependimento de Deus" pode ser útil para defender a inerrância bíblica (II Tm 3.16,17).
Quando se fala em arrependimento a primeira imagem a se formar entre os cristãos é o homem pecador voltando-se para Cristo, enxergando seus pecados, confessando-os a Jesus e convertendo-se em nova criatura. Todavia, muitos textos bíblicos se utilizam do mesmo termo em relação a Deus. Como entender isso?
A primeira menção do “arrependimento divino” está em Gênesis 6.6 quando ele se arrepende de ter criado o homem. Devemos entender que em nenhum momento Deus muda sua deidade movido por sentimentos humanos como se fosse um ser humano que volta atrás em determinados pontos dando a ideia de ter realizado algo incompleto ou imperfeito. As Escrituras deixam-nos cientes acerca disso (Nm 23.19; I Sm 15.29; Ml 3.6; Rm 11.29; Tg 1.17).
Vale lembrar que o texto de Números 23, e.g., constrói palavras proferidas por Balaão, um falso profeta que Deus usou para dizer algumas verdades, dentre elas o fato de que Deus não é homem para que minta nem filho do homem para que se arrependa. Como a Bíblia se completa por si só, outras referências são mais do que suficientes para assegurar que Deus não é falho como o homem (Rm 11.29,34; II Co 3.4,5; Jó 22.2; Sl 139.6; Is 40.12-31), ou seja, Deus é consistente em seus atos, não precisa de ninguém ou nada para que seja completo. Ele é o que é, soberano e justo e por isso não condena o inocente nem inocenta o culpado sem que este se arrependa primeiro e seja por Deus justificado (Ex 3.14; Na 1.3; Jo 8.24,58; I Jo 1.9).
O que ocorre é que um dos textos bíblicos que mais desconcertou biblicistas ao longo de épocas (Gn 6.6) foi assim redigido para facilitar o entendimento das pessoas, uma vez que o primeiro livro da Bíblia foi escrito em cerca de 1.400 a.C., ou seja, numa ocasião em que a linguagem não era tão vasta como nos dias de hoje. Estamos falando do hebraico antigo ou o hebraico clássico que possui diferenças na gramática, vocabulário e fonologia se comparado ao hebraico moderno.

O termo arrepender origina-se de nãham (hb) e quer dizer, dependendo do contexto ao qual está inserido, suspirar, respirar, estar pesaroso (num sentido mais favorável), apiedar-se, consolar, lastimar-se (num sentido mais reflexivo) e num sentido mais prejudicial significa vingar. O termo nãham é a raiz do nome próprio Naã, que traz um significado mais benéfico: consolação, doçura.1
Na primeira menção, isto é, em Gênesis 6.5-7 o termo refere-se ao suspiro, o respirar profundo de Deus em decepcionar-se2 com os caminhos tomados pelo homem. É necessário notar que existe aqui um revide de Deus, o que se configura como uma vingança, castigo, juízo para o homem iníquo, uma evidência do que viria; o Dilúvio:


"Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração; então, se arrependeu o Senhor de ter feito o homem na terra, e isso lhe pesou no coração. Disse o Senhor: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei. o homem e o animal... porque me arrependo de os haver feito."  (Gn 6.5-7 ARA. Grifo nosso).

Além dos termos destacados correspondentes ao tema desta análise, reparemos na paralelização dos corações humano e divino. O coração do homem tornou-se mau e, com isso, o coração de Deus tornou-se pesaroso. Obviamente, se Deus é espírito e não corpo, ele não possui um órgão muscular bombeador de sangue dentro do organismo, mas traz um sentido conotativo de que Deus possui sentimentos. Podemos dizer que o texto utiliza-se do antropoformismo3 aqui, mas não de uma forma irregular, ilegal, abusada, pois atribui-se uma forma humana (o coração) a Deus para a melhor compreensão humana do que seria Deus: uma "pessoa" que possui sentimentos que emana do seu "coração". Da mesma forma isso nos remete à antropopatia4, que, via de regra, não se relaciona com a deidade do Criador, porém, para termos alguma compreensão acerca de Deus de uma forma acessível ao nosso singelo entendimento, as vezes precisamos recorrer à antropopatia tanto quanto ao antropoformismo. Vale mencionar que este recurso deve ser utilizado em último caso por vários fatores, dentre eles o fato de que hoje vê-se uma prática absurda do antropopatismo e antropoformismo empregado a Deus, como se afirmasse que nele transpareça bipolaridade.
O que ocorre é que Deus não mente (Tt 1.2) e em Jonas não é questão de mentir ou não, mas trata-se do caráter de Deus. Se o homem se arrependeu, Deus também "se arrepende", isto é, volta-se em seu julgamento e oferece uma segunda chance, haja vista estar ainda no tempo em que é possível acha-lo (Is 55.6,7). No caso de Jonas, o arrependimento de Deus tem justamente este sentido:


"Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos? Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu caminho; e Deus se arrependeu do mau que tinha dito lhes faria e não fez." (Jn 3.9,10 ARA. Grifo nosso).

O termo usado para o "arrependimento divino" aqui é o mesmo usado em Gênesis, contudo, traz um sentido posterior à ação dos ninivitas. Eles se converteram do seus maus caminhos e gerou a reação de Deus em apiedar-se deles.
A mensagem central do livro de Jonas não é Nínive, não é a pregação de Jonas aos ninivitas, tampouco a misericórdia de Deus para com eles, a mensagem central do livro profético de Jonas é o seu próprio ministério sendo tratado por Deus ao longo de seu curto livro. Todavia, o que gera o descontentamento de Jonas é justamente a compaixão divina para com os ninivitas e o seu "arrependimento" em destruir Nínive.
Deus não disse a Jonas que sua mensagem seria irrevogável, mas Jonas esperava assim (Jn 4.1,2). O contexto do livro de Jonas só prova a afirmação do apóstolo João de que Deus é fiel e justo para perdoar, purificar e justificar todo aquele que confessar que o pecado existe por ação humana e nunca divina (I Jo 1.9). Assim, o arrependimento de Deus deve ser entendido como uma decepção do que ele esperava do ser humano (e.g. I Sm 15) ou da sua comoção ao ver o homem desistindo do pecado (e.g. Sl 51), que no caso de Jonas demonstra a comoção de Deus.
Tomemos nota de que Nínive não foi destruída no contexto de Jonas, mas foi subvertida, conforme as profecias de Sofonias e Naum, cerca de um século depois, entre 630 e 612 a.C. (Sf 2.13; Na 3).





NOTAS SOBRESCRITAS:

1. BÍBLIA de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. p. 1794.
2. Embora a palavra decepcionar não seja citada na maioria dos dicionários hebraico-português, entendemos que se trata de uma sinonímia de desgostar, amargurar, consternar, magoar, entristecer, aborrecer, etc.
3. Antropoformismo significa de forma humana (gr. antropoformos). É quando atribui-se formas humanas à seres divinos, neste caso à Deus.
4. Antropopatismo significa atribuir sentimentos humanos à seres divinos, neste caso à Deus. Vem dos termos gregos anthropos (homem) e pathein (sofrer).

2 comentários:

Gabbie-* disse...

Nossa muito bom, foi realmente muito plausível e válido para a minha compreensão acerca desse assunto. Parabéns, e continue realizando esse trabalho maravilhoso de compartilhar a compreensão bíblica a outras pessoas.Só mais uma dúvida onde estão cursando teologia??

Jones de Lira disse...

Gabbie-*,

Cursamos teologia no Seminário Teológico Batista de Alagoas (SETBAL), onde Deus tem se feito presente em cada aula e na vida de cada professor e aluno.
Que bom que pudemos contribuir com a sua compreensão. Elevamos seu elogio a Deus, que proporciona em nós a capacidade de facilitar sempre que possível o entendimento bíblico. Deus a abençoe ricamente.