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terça-feira, 10 de maio de 2016

[OPINIÃO] Por que no meu tempo era diferente?

Vamos brincar de quê?
Quando eu era criança a minha brincadeira preferida era qualquer coisa referente a carros, desde pegar as tampas das panelas da minha mãe e fazer delas volantes automotivos até construir magníficas rodovias com direito a túneis e pontes, obras dignas de um verdadeiro engenheiro civil, tudo no melhor campo de trabalho à minha disposição, o quintal de casa.
Eu gostava muito quando minha casa ou a dos vizinhos estava em construção, principalmente quando a construção era embargada, os materiais (areia, barro, traço, etc.) ficavam ao meu inteiro dispor. Meus amiguinhos permaneciam boquiabertos. Sim, eu era muito bom, extremamente talentoso, não sei como não me tornei um engenheiro civil, sempre fui bom em matemática, trigonometria, física, cálculos, medidas e fórmulas em geral.

      O fato é que o tempo passou e as coisas mudaram. Sempre fui liderado pelo meu irmão mais velho, mas lembro-me perfeitamente quando estava próximo de completar meus 18 anos que comecei a me tornar mais líder do que liderado. Enfim, ao passar os anos, olho para trás e me pergunto sempre: "Por que no meu tempo era diferente?"
Em que sentido eu faço esta pergunta? A melhor resposta é "em todos os sentidos". Quando criança e adolescente eu, como qualquer menino ou menina nesta fase, recriava o que via ao meu redor. Todos os carros que passavam na minha rua eu sabia os nomes, fossem nacionais ou importados, e não sabia porque lia em jornais ou revistas especializadas em carros, muito menos na internet. Quase ninguém gosava destes privilégios na época, minha família, menos. Eu sabia porque lia atrás dos carros, geralmente no porta-malas, o nome de cada um, associando com o logotipo da montadora. Parece besteira, mas para a minha idade, a partir dos 4 anos, no final dos anos 1980 e início dos 1990, era surpreendente. Sem brincadeiras, eu sabia até mais que o mecânico e amigo da família que morava próximo. Assim, me apaixonei por carros, especialmente os grandes.

      Lembrando disso, hoje sinto falta não apenas de brincadeiras e costumes antigos, embora não retrógrados, mas também de palavras que faziam parte do nosso simples e cotidiano vocabulário. Quanto tempo não ouço a palavra quintal, e.g.? Como era bom ter um quintal! Tínhamos pé de manga, goiaba, mamão, banana, jambo, graviola, todos os tipos de ervas para chás: cidreira, capim-santo, hortelã, aroeira, boldo, sambacaitá, babosa, etc. Todas as tardes, 16 horas, ou estávamos no nosso quintal, ou no quintal de alguém, e escutávamos nossos tios gritarem: "Hora de tomar banho!"
      Os dias mudaram, os costumes também. Os quintais deram lugar as áreas de serviço nos apartamentos. Os pés de frutas e ervas para chás deram lugar a polpa congelada e caixinhas da Maratá ou Dr. Oetker (sem merchandising), os carros ficaram todos iguais, nas cores populares, na potência e na aparência. As brincadeiras infantis não se resumem mais a socialização cara-a-cara: jogar chimbra (ou bolas-de-gude), pião, queimado, cuz-cuz (bem regional esta), esconde-esconde, garrafão, travinha (usávamos dois pares de chinelos, geralmente velhos, para servir como balisas e geralmente eram dois contra dois ou três contra três, no máximo, quem perdia entrava outra dupla ou trio), etc. Tudo era feito no quintal de casa ou no de alguém, na rua ou num terreno baldio. Realmente nos sujávamos, nos cortávamos, nos feríamos e nos ralávamos. Era muito bom. Sentíamos o cheiro do suor e não estávamos nem aí. Nosso troféu era geralmente um refrigerante, as vezes com quebra-queixo (um doce regional feito com coco, água e açúcar).

      Atualmente, as "brincadeiras" (essa palavra é bem estranha para os dias de hoje) se resumem a tablets, notebooks, consoles e smarthphones, onde os aplicativos simulam as antigas diversões. Hoje tudo é simulado, emulado, informatizado. É de cortar o coração. Vejo crianças ensinando aos pais a configurar uma conta do Instagram, a interagir com as reações possíveis em publicações do Facebook, e até adolescentes configurando um sistema operacional nos dispositivos dos pais.
      Todavia, a tecnologia não é por si só má, não é de todo prejudicial aos pequenos. O problema está no esquecimento dos valores aprendidos nas mais simples e singelas brincadeiras nostálgicas. Você via as pessoas face a face, decorava o semblante delas, os sinais, o jeito de andar. Lembro-me que conhecia cada membro da minha família pelo som que arrastavam os chinelos em casa (parece que ouço minha mãe se aproximando ouvindo a soleta de suas Havaianas batendo levemente nos calcanhares). Hoje, achamos que sabemos quem está do outro lado da grande rede de computadores, teclando nas redes sociais. Imaginamos, assistindo a vlogs, como seria se tivéssemos a vida dos youtubers. O fato é que nem sabemos que costumes tem, qual religião seguem, como se relacionam com seus familiares e amigos, etc.

      O apóstolo Paulo, certo dia, afirmou: "Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino." (I Co 13.11). Obviamente Paulo não está abandonando os valores aprendidos na infância. Aliás, ele se refere à igreja e sua relação com os dons espirituais, especialmente o amor. Ora, chegaria um tempo em que tudo estaria formado, maturado, completo, e os membros do corpo de Cristo não necessitariam mais de revelações espirutuais acerca da vontade de Deus para fins específicos, pois desfrutariam de toda a Palavra escrita, i.e., do cânon das Escrituras ao seu alcance. É aqui que Paulo nos toca: nós temos acesso a este cânon.
      Semelhantemente, nosso passado produz, de vez em quando, um clima de nostalgia, e as boas coisas que fazíamos sentimos vontade de refazê-las. E por que não refazê-las? Por que não saudar as pessoas que não conhecemos sentadas nas portas de suas casas? Por que não olhar fixamente nos olhos do próximo? Por que não ser sincero e rir com as coisas bobas do dia-a-dia?
      Se antigamente usávamos palavras simples como quintal, hoje utiliza-se muito mais palavras estrangeiras (bullying), compostas etimologicamente (homofobia), julgadoras (preconceito - seja referente à posição social, econômica, religiosa, política, etc.). O que acontece com o ser humano? Ele evolui, mas ao mesmo tempo involui.

      Nossos valores neste mundo, como povo cristão, tem se modificado na mesma proporção. Antigamente éramos mais fervorosos na presença de Deus, levávamos as coisas dentro da igreja mais a sério. Não éramos fissurados em entretenimento nas celebrações. Não esboçávamos a crítica realidade de ir ao culto somente se houvesse alguma distração: "Hoje eu só vou ao culto se tiver teatro, música, cinema, dança, etc." De certo ponto de vista, tínhamos mais amor e dedicação em tudo que se relacionava com o serviço santo. Orávamos mais, nos consagrávamos mais, ensaiávamos mais, nos preparávamos mais, nos dedicávamos mais para servir à Deus e às pessoas. Claro, havia exceções: muitos se enganavam ao orar muito e estudar pouco as Escrituras, ou vice-versa, ou algo que denotasse qualquer tipo de desequilíbrio, ou líderes que abusavam da posição sob ordens de uma cúpula meramente humana ou de seu próprio egocentrismo. É triste relembrar estes maus momentos.
      Atualmente vivemos numa época eclética, em todos os sentidos. Isso pode ser bom, como também pode ser ruim. De um lado, uma porção que age vazia de conhecimento e repleta de ignorância, meros líderes apedeutas que transformam multidões também em apedeutas. Do outro lado, indivíduos abarrotados de conhecimentos duvidosos, que beiram a esquizofrenia intelectual, líderes inteligentes destituídos de sabedoria, possuidores de mentes cauterizadas, que transformam, na mesma proporção que os apedeutas (ou mais), multidões de pessoas igualmente de pensamentos cauterizados, facínoras, ébrios e desequilibrados. Haja vista Paulo mencionar estes tais, homens que não são ignorantes, ao contrário, possuiam fé e por questões intelectuais, sociológicas, religiosas, egoístas, acabaram dando crédito à demônios (cf. I Tm 4.1-5).

      Os campos teológicos onde muitos se preparam academicamente para o que definem entre si como ministério estão lotados de críticos além dos limites do próprio campo de estudo, a Bíblia (II Jo 1.7-9). É preciso lembrar que daí saem os pastores que apascentarão (ou deveriam) as ovelhas de Cristo Jesus. O problema é que muitos vão ao Seminário sem a devida preparação, munidos de um experiencialismo, que afirmam ter sido Deus quem os levou. Há, evidentemente, os que, de fato, foram enviados por Deus, da mesma maneira que há os que se dizem enviados por Ele, embora não seja verdade.
      Outro problema são alguns dos mestres que lecionam: trazem consigo apologia à correntes estranhas, duvidosas, antibíblicas, esquisitas, que põem em questão temas já resolvidos teologicamente no passado (salvação, perdão, aceitação, inspiração, etc.) e ainda afirmam (não todos, claro) que a Apologética não serve para os dias de hoje. Eles mesmos são apologetas. Estes problemas interagem intimamente entre si: mestres de conhecimentos duvidosos acabam, muitas vezes, aliciando alguns seminaristas de ânimo cambaleante, i.e., ingênuos, inaptos. Este clima triste, porém real, reluz no âmbito das igrejas, contaminando os membros pueris, concordando com os pseudo-pastores ou estorvando o trabalho dedicado e suado dos genuínos líderes e seus membros fiéis (primeiramente a Deus).

      A simplicade das brincadeiras de criança do meu tempo contrastam com a tecnologia corroendo a eficaz socialização entre indivíduos atuais, assim como a delicadeza e objetividade no serviço santo da mesma época defronta as vastas alternativas (bíblico-teológicas) existentes nos dias de hoje. Há um grande menu aberto descrevendo as opções, mas com os preços à pagar escondidos: extremismo, agnosticismo, feminismo, liberalismo (entre várias ramificações). Estes dois últimos tem conseguido espaço significativo e vem fulminando as mentes daqueles cujo livro de Provérbios, e.g., chama-os de simples, ou seja, ingênuo, toloseduzível, aquele que recebe o engano como se fosse a verdade por falta de conhecimento (hb. pethî - cf. Pv 1.4).

      Talvez a resposta para a minha pergunta parta do princípio de que as coisas mudam, o tempo passa, os costumes evoluem-se, a sociedade se transforma, as necessidades de um determinado povo modificam-se. Pode ser, até certo ponto. O escritor aos hebreus afirmou que "quando se muda o sacerdócio, necessariamente há também mudança de lei." (Hb 7.12), todavia, o mudar aqui não pode se transformar necessariamente em perder valores e transmutar-se em excêntrico pela simples indispensabilidade em adequar-se à moda, ou à mídia, ou a tudo que contraria a todos, ou pelo simples fato de se pôr como o diferente. O texto se remete à antiga Lei mosaica (gr. nomos), antiga porque mudou toda a estrutura legal sobre a qual era baseada. Isto é bem radical, mas não a ponto de ser antibíblico. Jesus não revogou a Lei, mas a resumiu, tornando-a mais útil e objetiva por ser ele o novo sacerdote do novo sacerdócio (Hb 7.14; cf. Mt 5.17; 22.36-40) e perceber que em questões de usos e costumes, sobretudo nas mais variadas culturas, nações e épocas vindouras, sua Palavra precisava reinar em toda a terra de forma simples e objetiva (cf. e.g. Mt 5.18; Lc 16.17). A ideia era facilitar.
      Ora, ser santo como a Bíblia ordena não significa ser excêntrico na iminência de se tornar alguém revoltado que dá a vida por uma opinião que choca ao invés de mudar pessoas (para melhor), não significa ser diferente dos cristãos, tampouco perfeito, não, mas ser separado do mundo e para Deus, como afirma o próprio Senhor no AT (hb. qãdôsh - Lv 11.44,45) e repete através do apóstolo Pedro no NT (gr. hagios - e.g. I Pe 1.15,16).
Assim, recriamos o que vemos ao nosso redor, por isso os tempos mudam. Somos influenciados por aquilo que nos cerca. Entretanto, é preciso recriarmos somente aquilo que, de fato, nos traz valor, riqueza de detalhes que nos instrui e nos torna cada vez mais sábio, muito além de meros indivíduos inteligentes e pensantes (e consumidores de livros). É como diz o sábio:


"As palavras do homem sábio nos forçam a tomar uma atitude. Elas explicam claramente verdades muito importantes. A coleção dos seus ditos são como pregos bem fixados, vinda do único Pastor. Mas meu filho, cuidado: Há tantas opiniões diferentes que é impossível contar. Você poderia estudar essas opiniões por toda a sua vida, ficar cansado de estudar, sem chegar ao fim. Esta é a minha conclusão final: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos. Isso é o resumo do que o homem deve fazer. Pois Deus vai julgar tudo o que foi feito, até aquelas coisas que ninguém conhece, sejam elas boas ou más." (Ec 12.11-14 NBV).

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