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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Em um mundo de iguais, faça diferente

Ser diferente é não confundir brilho com brio
"Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um... Tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada..." - Romanos 12.1-8.

Em um mundo de iguais, fazer diferente é um desafio. Imagine um grupo de pessoas sedentas por justiça pelas próprias mãos, trazendo consigo uma pessoa que afirmavam ter cometido um grande pecado e utilizar-se de uma lei para confrontar um jurista, perguntando-o como ela deveria ser morta. Devemos levar em consideração o fato de que o grupo que traz consigo a pessoa acusada não procura um julgamento justo, mas  impõe sobre o jurista a decisão de como ela deve morrer. Todavia, de repente, o jurista reverte toda a acusação sobre o réu em direção aos seus acusadores que, inevitavelmente, reconhecem suas falhas, ainda que timidamente. Isso, de fato, ocorreu. O jurista em questão é Jesus, o réu é uma mulher apanhada em adultério e os acusadores são os escribas e fariseus, que deveriam ensinar e praticar a Lei, mas distorciam-na (Jo 8.1-11).
    O fato é que Jesus em nenhum momento aprova o que lhe é contrário, nem o pecado da mulher, nem o julgamento condenatório dos acusadores. Diante disso, a pergunta que devemos fazer é: Jesus agiu diferente? Óbvio que sim! Não apenas neste contexto, mas em todo o seu ministério humano.
    Fazer diferente enquanto todos adotam o mais fácil é muito complicado, requer bastante esforço e persistência. O texto bíblico nos mostrará que o primeiro passo para ser diferente, e com isso, experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, é ser fiel ao Evangelho. De que forma?

1. Apresentando os nossos corpos para Deus (v. 1).


    Quando Paulo diz "rogo-vos" (gr. parakalo) ele utiliza uma expressão muito usada para tropas prontas para a batalha, como se estivesse encorajando os romanos para o mútuo serviço à Deus mediante as Suas misericórdias. Era uma última mensagem antes de partir para a guerra. Não se limitava apenas a um pedido para esterem prontos para combate, mas uma exortação.
    Paulo pede que o corpo seja oferecido a Deus. Aqui, corpo, é literalmente homem completo (gr. somata), i.e., dar tudo de si. Sendo assim, apresentar os corpos para Deus significava muito mais do que uma expressão meramente física, o sentido mais completo era entregar toda a vida nas mãos de Deus, diferente da cultura grega da época, que pensava na ideia de entregar apenas o "espírito". Os gregos nunca diriam o que disse Paulo, por isso que ele disse, mas não apenas isso, disse também que o sacrifício precisava ser vivo, diferente dos moldes do AT, quando o animal era morto e sofria a condenação no lugar de alguém ou de alguma família. Não precisamos morrer, obviamente, porque Cristo já o fez em nosso lugar. O sacrifício torna-se, então, além de vivo, santo e agradável a Deus.
    A declaração "por sacrifício vivo" merece mesmo ser destacada. Não se restringe a um simples pedido, trata-se de um chamado poderoso e mostra a dureza do serviço à Deus. Devemos entregar tudo o que somos, tudo o que fazemos e tudo o que temos, afinal, como podemos comparar tudo o que oferecemos a Deus com o que ele nos deu primeiro?

2. Cultuando racionalmente (v. 1).


    Uma vez oferecido o corpo, i.e., a nossa vida por completo, podemos cultuar a Deus racionalmente. O termo em questão aparece assim: ten logiken latreia, ou seja, a lógica do culto. A palavra grega logiken pode ser traduzida tanto por lógica quanto por da palavra, uma vez que logiken vem de logos, que siginifica palavra. Assim, se ten logiken latreia significa a lógica do culto, também traz o sentido de culto da palavra ou culto conforme a palavra. Cultuar racionalmente é uma expressão que os judeus da época entenderam perfeitamente: o culto precisa ser conforme a Palavra, de forma lógica e consciente. "Eu preciso saber o que estou fazendo ao servir a Deus", foi esta a mensagem transmitida por Paulo aos cristãos gentios de Roma.

3. Não nos conformando com este século (v. 2).


    Antes de qualquer informação, vale lembrar que a palavra mundo presente em algumas versões (ARC, NVI, NBV, KJV) não foi corretamente traduzida. A melhor palavra seria século ou época, porque não fala de lugar físico, mas de tempo.
    Não conformar-se com aquela época significava não se amoldar, não tomar a mesma forma, naquele caso, das outras religiões dos romanos. A época que Paulo se refere é o sistema do Império Romano em 57 d.C.: muitas religiões judaicas existiam dentro de Roma, poderíamos citar algumas como os Essênios, os Zelotes, os Saduceus, os Fariseus, os Sicários, os Herodianos, etc., que eram notoriamente parte do ambiente judaico-romano. O que Paulo dizia era que os cristãos gentios de Roma, ao qual ele queria visitar, não se adequassem às outras religiões romanas e/ou judaicas, mas demonstrassem suas identidades de cristãos genuínos. Isso era fácil? Claro que não! O principal motivo que acendeu a terrível perseguição de Roma sobre os cristãos foi o fato de eles serem bastante fiéis ao cristianismo, sobretudo pregando o arrependimento no Jesus ressurreto para todos. Muitos foram martirizados por tal atitude, porém, não desistiram. O início da Igreja constiuída por Cristo, além de outras características, fez cumprir muitas palavras proferidas por ele antes de sua morte, como por exemplo: "Quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim; e quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa, achá-la-á." (Mt 10.38,39 ARA). Portanto, nunca foi fácil ser cristão, e Cristo e toda a Bíblia nunca esconderam esta verdade, porém, se fomos escolhidos, devemos deixar exalar de nós o bom perfume de nosso Mestre para todos (II Co 2.15).
    A identidade como cristãos genuínos deve ser preservada por cada um de nós, antes como cristãos, depois, como religiosos, de acordo com a religião que fazemos parte, sem subestimar as outras nem sobrebor a denominação acima da bandeira de Cristo (II Tm 3.1-5).

4. Transformando e renovando a nossa mente (v. 2).


    O primeiro sinal de conversão ao Evangelho de Cristo é a transformação, mesmo que ocorra gradativamente. A forma como acontece a transformação é pela renovação da mente. No texto, transformação é literalmente transformai-vos (gr. metamorphousphe). Só é transformado aquele que ainda continua da mesma forma.
    A primeira mudança ocorre na mente, i.e., no intelecto (gr. nus), o lugar onde processa todas as informações para que eu entenda por completo o que esteja fazendo (culto racional, consciente). É por isso que o culto não se limita a uma mera formalidade litúrgica, por mais importante que seja, mas a uma vida transformada e consciente a serviço do reino de Deus, diariamente, dentro e fora do Templo.

5. Pensando moderadamente (vv. 3-5).


    As palavras de Paulo são sistematizadas, organizadas, sequenciais, se fugirmos dessa técnica e pularmos quaisquer passos, não atingiremos o ápice do Serviço Santo. Como podemos pensar moderadamente se nossa mente não foi transformada?
    O pecado chamado "orgulho" está presente em cada um de nós, implantado pela herança maldita desde a queda de Adão, por isso, pensar que somos melhores do que os outros ao nosso redor é fácil, e isso nos faz automaticamente excluir o outro, quando deveríamos somar com eles. Calvino estava certo quando dizia que a nossa natureza é totalmente depravada. É por isso que o sábio afirma: "Comer muito mel não é bom; assim, procurar a própria honra não é honra." (Pv 25.27). Este é o constante desejo humano, mas quando confrontado com as Sagradas Escrituras, faz-nos ser diferentes.
    Sobre pensar moderadamente (gr. phronein eis to sophroneis) podemos extrair pelo menos três lições: (a) Não ir além das fronteiras estabelecidas: não devemos ultrapassar os limites estabelecidos pela vida e pela Bíblia; (b) conhecer e respeitar os próprios limites: respeitar nossos próprio limites fará com que não ultrapassemos as marcas definidas nem atropelar o nosso próximo, e para isso precisamos conhecer estes limites; (c) juízo perfeito: ter bom siso é crucial para servir a Deus (Pv 2.11).

6. Reconhecendo a dependência da Graça Divina (vv. 3,6).


    Reparemos no discurso de Paulo: ele sempre eleva a graça de Deus como provedora de tudo. Graça, no grego é cháritos (v. 3) ou chárin (v. 6) que vem do radical cháris, que, neste contexto, traz a ideia principal de generosidade.
    Generosidade, no mais puro e simples significado bíblico, seria:
• Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não importa, o Senhor é o meu pastor.
• A minha graça te basta.
• Estarei convosco até a consumação dos séculos.
• Amei o mundo de tal maneira.
• Já não vos chamo servos, mas amigos.
• Onde abundou o pecado, superabundou a Graça.
    Percebamos nestas partículas biblicas lembradas acima que a graça/generosidade divina sempre acompanhou o servo de Deus por todas as épocas e lugares neste mundo. Por que seria diferente conosco?

    Após estes passos, somos habilitados pela Palavra transformadora a experimentarmos a vontade de Deus, que é boa, agradável e perfeita, sendo perfeitamente ajustados no corpo de Cristo em nosso serviço específico. Paulo segue adiante com seus conselhos práticos listando funções que todos os crentes devem desempenhar como parte do corpo de Cristo dentro e fora da igreja. O comportamento do indivíduo neste corpo o torna diferente do mundo ao qual ele está inserido. Isso atrai críticas, perseguições, rótulos e responsabilidades. Estejamos prontos para servir Aquele que nos serviu primeiro.




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